STRIP POKER (PORTUGUÊS)

Comédia de Jean-Pierre Martinez

traduzida por Concha Sousa Martins

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4 PERSONAGENS

Pedro – Maria – Joaquim – Carmo

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Esta comédia de sucesso já foi representada em teatros de todo mundo :

Paris, Madrid, Miami, Buenos Aires, Montevideo…

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Convidar os novos vizinhos, para se conhecerem: uma ideia arriscada que pode custar caro e dar lugar a uma comédia na qual cada um deve pôr uma carta na mesa…

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 ACTO 1

 

Na sala de visitas, Maria, loira e sexy, tendo-se esmerado na toilette, põe uma mesa de festa para quatro. O seu telemóvel toca. Ela atende.

Maria (amável) – Si, estou… (Irritada). Ah, não, lamento, não é o Pedro, fala Maria, a sua mulher… Está a ligar para o meu telemóvel… Posso deixar-lhe um recado…? Está bem… Não, não há problema…

Ela volta aos seus preparativos com uma alegria eléctrica. O seu telemóvel toca de novo.

Maria (ainda mais irritada) – Estou…? (Amavelmente) Ah, olá Júlio… Sim, sim, está tudo bem… Cheguei a dizer-te que deixei de fumar…? É verdade, desde hoje de manhã… Não, descansa que não estou grávida, mas já estava a fumar dois maços por dia. Ao preço a que está o tabaco, calculei que num ano posso poupar para pagar um safari no Quénia. Se só aguentar uma semana, posso ir jantar à outra banda. De qualquer maneira, com o que já poupei hoje, comprei um frasco de Nutella… (Suspirando) Nunca pensei que custasse tanto… Mas o que é que tu queres? Agora já nem se pode fumar nos cemitérios… Sim, o Pedro está bom. À espera de melhorar… Não, estava a falar do trabalho dele… Desculpa lá mas tenho que desligar, o porco com ameixas já começa a secar. Falamos depois, ok? Tchau tchau…

Maria desliga, cheira o ar e lança um olhar para os espectadores.

Maria – Cheira a gás, não acham…?

Ela dispara para a cozinha. Pedro chega, com um ar de intelectual, a assobiar. Tira a gabardina, senta-se no sofá e folheia o Público cujo título de capa é: Os telemóveis são cancerígenos? Maria regressa. Ele pousa rapidamente o jornal na mesa e põe um ar trágico.

Maria (alegremente) – Olá!

Pedro (sinistro) – Olá…

Maria (vendo a cara dele) – Algum problema?

Pedro – Vou ser dispensado…

Maria – Dispensado! Mas porquê?

Pedro – Deslocalização…

Maria – Ora bolas… Mas que chatice…

Ele enfia-se pelo sofá abaixo.

Pedro (patético) – Não me vais deixar, pois não?

Maria abraça-o para o consolar.

Maria – Estás parvo, ou quê? Eu trabalho, não? Ainda por cima deixei de fumar. Com as economias que vamos fazer, tu até podias passar a meio-tempo… E, se for preciso apertar ainda mais o cinto, apertamo-lo. (Uma mão na barriga) Vou deixar de comer Nutella…

Pedro (acrescentando) – Eu não quero viver à tua custa… Preferia morrer…

Maria – Não digas asneiras… Somos Casados, Pedro! Para o melhor e para o pior! Deixaremos o melhor para o fim… Mas é uma estupidez eles mandarem-vos assim para outro lado sem avisar…

Pedro – Sabes, agora… com a mundialização…

Maria – Mesmo assim… Deslocalizar a Biblioteca Nacional… E onde é que a vão pôr? O edifício é enorme…

Pedro – Na China… Vão desmanchar peça a peça, encaixotar e reconstruir numa zona industrial nos arredores de Cantão. Já começaram a desmontagem…

Maria (aterrorizada) – Diz-me que é mentira!

Pedro – Não, não… é mesmo verdade…

Maria – Mas o que é que os chineses vão fazer com todos os livros? Não vão perceber nada… nem vão conseguir arrumá-los por ordem alfabética…

Pedro – A literatura vai ser toda convertida em esperanto por tradutores automáticos e, depois, vão numerar tudo e guardar num computador central em forma de pagode. Claro que o acesso aos dados vai ser pago… um contrato de adesão como para a TVCabo. Quanto ao papel… será reciclado. Pelo menos assim evita-se que cortem os últimos hectares de florestas de eucaliptos que ainda restam na China. (Suspirando) Ao menos que o meu sacrifício permita salvar alguns pandas…

Maria (oprimida) – Não pode ser verdade…

Pedro tenta manter um ar sério mas desmancha-se a rir.

Pedro – Claro que não! Acreditaste mesmo nesta parvoíce?

Maria (furiosa mas aliviada) – Não devias brincar com coisas sérias…

Pedro – É verdade que agora não dava jeito nenhum que eu perdesse o meu emprego. Nem é muito mal pago… e deixa-me tempo livre para escrever… Por falar nisso, tenho uma boa notícia para te dar. As Edições Confidenciais aceitaram publicar a minha peça!

Maria (fingindo entusiasmo) – As Edições Confidenciais… Genial!

Pedro – Nem tanto… a edição é por minha conta… Preciso de vender pelo menos quatro mil exemplares para reembolsar os custos de impressão. Quatro mil livros vendem-se depressa, não achas?

Maria – Entre os teus pais e os meus… Se cada um comprar mil!

Pedro esfrega as mãos de contente com um sorriso de satisfacção.

Pedro – Então hoje janta-se ou não? Esta noite há Strip Poker…

Maria (desconcertada) – Queres que façamos os dois um strip poker?

Pedro – Strip Poker, aquele reality-show na televisão, sabes bem o que é!

Maria – Eu? Não…

Pedro – Convidam casais. Cada vez que um acha mais prudente não responder à pergunta que outro lhe faz, tem que despir uma peça de vestuário!

Maria (suspirando) – Não percebo como é que podes ver essas porcarias… E em que canal vês?

Pedro – Num canal da TVCabo… Hoje é a final!

Maria – Pois hoje, final ou não, não vais poder ver…

Pedro – A televisão avariou-se?

Maria – Não… Mas não vais poder ver…

Pedro – Porquê, proíbes-me?

Pedro apercebe-se que a mesa está posta para quatro pessoas.

Pedro – Não me digas que convidaste os teus pais?

Maria – Os vizinhos.

Pedro – Os vizinhos? Mas eles mudaram-se há um mês…

Maria – Os novos vizinhos!

Pedro – Os novos vizinhos? Mas nem sequer os conhecemos!

Maria – Por isso mesmo. Cruzei-me com a senhora na casa do lixo… E pensei que seria uma maneira de nos conhecermos

Pedro – Para quê?

Maria – Simplesmente para os conhecermos…

Pedro – Qual o interesse em conhecê-los?

Maria – É sempre bom conhecermos os vizinhos… Nunca se sabe se vamos precisar deles…

Pedro – Precisar deles…? Para quê?

Maria – Sei lá… para regarem as plantas quando saímos…

Pedro – O teu gato comeu a única planta verde que tinha no meu escritório, no domingo passado, quando fomos almoçar aos teus pais.

Maria – Isso mesmo! Se houvesse alguém para dar de comer ao meu gato, ele não teria destruído a tua planta verde… A propósito, não me lembro de ter visto o gato hoje… bizarro…

Pedro suspira.

Pedro (inquieto) – Eles têm filhos?

Maria – Penso que têm três…

Pedro – Não me digas que também os convidaste?

Maria – De certeza que preferem ficar tranquilamente em casa deles. (Irónica) Para não perderem a final do Strip Poker.

Pedro – Não remexas mais na ferida, por favor…

Maria – E moram mesmo aqui ao lado…

Pedro – Mas não eram os vizinhos da frente?

Maria – Os vizinhos da frente? Suicidaram-se há seis meses! Não te lembras do aparato de bombeiros durante a noite, com as luzes e as sirenes?

Pedro – Não…

Maria – Pois eu acordei com aquela barulheira toda. E desde esse dia que tenho pesadelos. Eles deixaram o gás aberto… Foi uma sorte o bairro não ter ido todo pelos ares…

Pedro – Há pessoas que não pensam mesmo nos outros… E porque é que se terão suicidado assim? E logo os dois?

Maria – Vá-se lá saber… Se calhar nessa noite não havia nenhum programa interessante na televisão… Se os tivéssemos convidado, talvez…

Pedro – Não me vais dizer que convidaste os vizinhos para jantar só para não te sentires responsável se, por acaso, eles decidissem suicidar-se hoje à noite…?

Maria – Sabes, hoje estranhei receber várias chamadas para ti no meu telemóvel…

Pedro – Ah pois, desculpa, como não sei o que fiz ao meu, deixei o teu número no atendedor do escritório. Para o caso de algum produtor tentar ligar-me por causa da peça… É melhor que esteja sempre contactável, percebes?

Maria (siderada) – O número do meu portátil? Não teria sido mais fácil comprares outro?

Pedro – Oh… E até pensei que podíamos viver muito bem sem telemóvel, não?

Maria – Pois sim… Quando se tem uma mulher à mão de semear para fazer de telefonista…

Pedro – Ouve lá, tu estás a tentar deixar de fumar e eu decidi passar sem telemóvel. Vamos ver quem aguenta mais tempo.

Maria (exasperada) – Pois, mas eu não te peço para fumares os cigarros por mim!

Pedro mergulha de novo na leitura do Público, do qual só os expectadores podem ver o título de primeira página (O telemóvel é cancerígeno?). Maria olha-o surpreendida.

Maria – Não achas que podes ir mudar de roupa antes que eles cheguem?

Pedro – Quem?

Maria – Os vizinhos!

Pedro – Ah, é verdade! Já tinha esquecido esses dois!

Pedro, resignado, prepara-se para ir mudar de roupa.

Maria – E eu vou ver se o forno se mantem aceso. Cheira um pouco a gás, não achas?

Pedro encolhe os ombros e sai. Maria também sai e volta logo a seguir com garrafas e copos para preparar os aperitivos. Pedro volta logo a seguir, vestido descontraídamente.

Maria – Foste pôr o pijama?

Pedro – Não é um pijama! É um fato de treino para estar em casa.

Maria – E as pantufas, ou também não são pantufas…?

Pedro – Ouve lá, se queremos ser íntimos dos vizinhos, mais vale estarmos à vontade, não achas…?

Maria – Imagina que ele vem de fato e gravata e ela de vestido de noite… Não lhes disse que seria uma festa do pijama…

Ele volta a sair, suspirando. Ela continua a preparar as coisas. Ele regressa vestido normalmente.

Pedro – Estou bem assim?

Maria – Podias estar melhor … mas está bem…

Pedro olha para o correio que está na mesa de apoio.

Pedro – A Comuna, Livros Cotovia, Companhia de Teatro de Almada…

Ela olha-o intrigada.

Pedro – Infelizmente não é nada disto… (Pegando nas três cartas) Portugal Telecom, EDP, EPAL… (Suspirando) Que belo trio…

Maria – Será que os correios estão outra vez em greve? Nesse caso, só garantem o serviço mínimo. Só entregam as facturas…

O telemóvel de Maria toca de novo, ela responde.

Maria – Está lá…? (Com voz amável e afectada) Não, está a falar com a telefonista, não desligue por favor, vou-lho passar. (Passando-lhe o telemóvel) É o teu amigo Paulo…

Ele agarra no telemóvel como se não se passasse nada de especial.

Pedro – Estou, olá Paulo… Tudo bem… Sim… Há algum tempo, sim… Terça-feira? Porque não… Mas tenho que falar com a Maria. Agora ela está ocupada. Ligas-me amanhã? Ok, se eu não estiver em casa, tenta o telemóvel…

Olhar furioso de Maria.

Pedro – Ok, até amanhã, Paulo…

Ele desliga.

Pedro – Mas que chato!

Maria – O que é que ele queria?

Pedro – Convidar-nos para jantar na terça-feira. É o aniversário da mulher dele…

Maria – Pensava que ele era o teu melhor amigo…?

Pedro – Os aniversários deprimem-me… Eu por acaso convido-os para os teus aniversários?

Maria – Para os convidares precisavas de saber a data…

Pedro – Pensando bem, ficarei bem mais tranquilo sem telemóvel. O que é que estarão a fazer os nossos vizinhos? Não vão dizer-nos que ficaram parados num engarrafamento … moram mesmo aqui à frente!

Maria – Ao lado…

Pedro – Isso mesmo, nem sequer têm que atravessar a rua!

Maria – Aguenta, ainda só são nove horas…

Pedro – Normalmente a esta hora já acabámos de jantar. Começo a ficar esganado de fome… (Espantado) Sobretudo porque cheira muito bem. (Incrédulo) Que iguaria é que preparaste?

Maria (orgulhosa) – Porco com ameixas. Vi a receita na Caras…

Pedro – Ok… Não achas que é arriscado fazer receitas novas… mas pronto…

Pedro – Nem sei como se chamam essas pessoas…

Maria – Ela é Carmo, e ele Joaquim, creio…

Pedro – Ah, já são íntimos, pelo que vejo… E o apelido?

Maria – Já não me lembro. É um nome de detergente para a roupa.

Pedro – Skip? (Maria faz sinal negativo com a cabeça) Persil? Não me digas que é Omo?

Maria – Star! (Já pouco segura) Ou Stern… Ou Estrela…

Pedro – Star ou Stern ou Estrela?

Maria – Sei lá. Não me lembro. Sei que associei a um detergente… Logo se vê… Isso tem cá uma importância

Pedro – Pode ter! Porque se for Stern, o teu porco com ameixas… Sempre podem comer as ameixas. São boas para os intestinos…

Maria (preocupada) – Bolas, não pensei nisso…

Pedro – Pois… Quando se convidam pessoas que não se conhecem…

Maria – Tens razão, mas como é que eu ia desconfiar? Joaquim e Carmo, não são…

Pedro – Nem todos os muçulmanos se chamam Mohamed…

Maria – Pensas que eles são muçulmanos…?

Pedro – Deixa estar, no que diz respeito ao porco vai dar ao mesmo, não é?

Maria – Talvez não sejam praticantes…

Pedro – Se calhar devias prever uma pizza congelada… Vegetariana, de preferência…

Tocam à porta. Maria fica petrificada, em pânico.

Maria – E agora o que é que fazemos?

Pedro – Acho que não podes deixar de abrir a porta. É o que se faz quando se convidam pessoas e elas tocam à porta. Ou então fechamos as luzes e vamos ver a final de Strip Poker na casa de banho…

Maria – Vou abrir…

Ela desaparece para ir abrir a porta e receber os vizinhos.

Maria (off) – Boa noite, Boa noite… Entrem, por favor… Ora, não era preciso, Não era preciso…

Pedro – O presente Skip… Ou Star… Ou Estrela…

Maria regressa à sala de jantar, com um ramo de flores na mão, seguida pelos vizinhos.

Pedro (imitando a amabilidade afectada de Maria) – Boa noite, boa noite… Tudo bem…?

Maria – Que flores são? Margaridas? As pétalas são enormes!

Carmo (incomodada) – São túlipas…

Maria – Claro, são magníficas!

Carmo – Podem ter murchado um pouco com o calor.

As flores estão efectivamente muito murchas

Maria – Vou já pô-las numa jarra com água…

Pedro – Talvez ainda ressuscitem…

Os vizinhos entram. Carmo, morena, bem conservada para cinquenta anos, magra, vestida elegantemente mas sem exageros, estilo saia e casaco e cabelo apanhado. Joaquim, mais descuidado e simplório, uma garrafa na mão, veste um fato mais maltratado que as flores. Em suma, um casal convencional contrastando com o estilo jovem e mais descontraído de Pedro e Maria. Maria faz as apresentações.

Maria (para Joaquim) – Apresento-vos o meu marido (Enfatizando o apelido) Pedro Açafrão…

Os dois maridos cumprimentam-se com um aperto de mão.

Pedro (sinistro) – Muito prazer…

Maria (para Joaquim) – E o senhor?

Joaquim (sorridente) – Joaquim…

Maria – Apenas Joaquim, muito bem…

Joaquim entrega a garrafa a Pedro.

Joaquim – É para vocês, é melhor pô-la no frigorífico…

Pedro – Um Raposeira! Muito obrigado, Joaquim…

Joaquim – Bem fresco é tão bom como o champanhe, não acha?

Pedro (irónico) – E assim não nos arruinamos, não é? Vou pô-la no congelador. Para que fique ainda melhor.

Pedro leva a garrafa para a cozinha.

Maria (embarassada) – Encontraram facilmente?

Cara de vizinhos que moram mesmo ao lado.

Maria (tentando emendar) – Não, sei muito bem que moram aqui ao lado…Queria dizer… Se tinham encontrado facilmente… (improvisando) alguém para ficar com os vossos filhos…

Carmo – Sim! A mais velha toma conta dos dois pequenos. E, se não se importarem, daqui a um bocado vamos lá dar uma vista de olhos.

Pedro regressa.

Maria – Como é que se chamam os vossos filhos?

Carmo – Sara, Ester e o mais novo Benjamim.

Maria tenta perceber a que religião pertencem os vizinhos, mas não chega a qualquer conclusão.

Maria – Benjamim… É lógico … O mais pequeno…

Carmo – Presumo que não tenham filhos…

Ligeiro incómodo.

Maria – Ainda não… (aventurando-se) Desculpem, mas o vosso apelido é Star, Stern ou Estrela…?

Pedro – Como o detergente…

Joaquim – Estrela.

Maria – Ufa! Receávamos que fossem judeus!

Mau estar dos convidados. Maria, petrificada, tenta emendar a mão.

Maria – Lamento muito, mas acontece que eu fiz porco assado com ameixas… Mas pode-se alterar. Tenho com certeza uma quiche no congelador… Sem cerimónias…

Pedro – A menos que marquemos o jantar para outro dia…

Maria fuzila-o com os olhos.

Carmo – Não, não mudem nada por nossa causa. O porco assado está muito bem…

Joaquim (trocista, sem rir) – Em contrapartida, as vossas ameixas… são Kosher? (Ar embarassado de Maria) Estava a brincar… Desde que não tenham caroço! É que digo sempre que é por causa dos dentes.

Maria (forçando-se a sorrir) – Agrada-me ver que tem sentido de humor… E depois judeus ou muçulmanos, hem?

Pedro – Sim, podia ter sido pior! O Senhor podia ser dentista ou informático…

Novo mau estar…

Maria (para desanuviar o ambiente) – E se passássemos aos aperitivos…?

Escuro

ACTO 2

 

Os dois casais estão nos aperitivos. Pedro e Maria já estão com um ar bem chateado mas ouvem educadamente a conversa insípida de Joaquim.

Joaquim – O problema, para nós, dentistas, é que agora passamos mais tempo a preencher papéis do que a tratar dos dentes. E como tudo é feito no computador… Digo sempre que me ensinaram a manusear a broca e não o rato. Felizmente a minha mulher dá-me uma ajudinha. A informática é com ela, mas eu…

Pedro e Maria concordam amavelmente.

Joaquim – E de hoje em dia as profissões liberais são muito mal tratadas… A propósito, conhecem esta anedota?

Pedro e Maria com ar educadamente interessado.

Joaquim – É um dentista que faz um cruzeiro no Pacífico com a sua mulher. Naufrágio! O navio afunda-se…

Maria, forçada, desata a rir às gargalhadas… Consternação dos outros três.

Joaquim – Não, não era agora…

Maria fica de novo séria.

Joaquim – Andam à deriva durante uma semana antes de chegarem a uma ilha deserta. A mulher, claro, está muito inquieta e diz ao marido: nunca mais nos vão encontrar!

Maria volta a rir às gargalhadas.

Joaquim – Ainda não é agora…

Maria fica de novo séria.

Joaquim – O marido pergunta-lhe: pagaste a Segurança Social antes de virmos? A mulher: não! O marido responde: então não te rales porque eles vão encontrar-nos!

Joaquim desata a rir com a sua anedota. Maria, escaldada, não ri.

Joaquim – Era agora…

Maria faz um esforço para rir, com ar idiota. Joaquim tira o maço de tabaco e oferece um cigarro a Pedro.

Joaquim – Um cigarro?

Pedro – Não, obrigado, eu não fumo…

Joaquim estende o maço a Maria.

Maria – Deixei de fumar esta manhã…

Carmo olha para Joaquim com ar de reprovação e ele guarda o maço.

Joaquim – Pronto… Assim sendo não vos vou encher de fumo… Vejam só… Falam tanto dos cigarros… mas os telemóveis também não fazem lá muito bem à saúde… Li no Público um artigo sobre isso. Parece que, a partir de um quarto de hora por dia, um tumor no cérebro é garantido…

Maria agarra no Público que Pedro deixou debaixo da mesa de apoio e passa uma vista de olhos no título: Os telemóveis são cancerígenos?

Joaquim – Têm toda a vantagem em não ultrapassar esse tempo!

Maria lança um olhar incendiário a Pedro.

Joaquim – Eu fumo mas não tenho telemóvel!

Maria (irónica) – O meu marido também não. Prefere que seja eu a ter um tumor… E não ele…

Joaquim – Sabem o que é que é mais penoso na minha profissão?

Pedro e Maria fazem de conta que pensam na resposta.

Joaquim – Ter que estar sempre a lavar as mãos entre dois clientes. Olhem para as minhas. São secas! Dir-me-ão que eu poderia por luvas, mas… Pensem um pouco… É um trabalho muito minucioso, a arte de dentista, sabem? Já tentaram enfiar uma agulha com luvas de boxe?

Pedro – Nunca. Aliás, eu coso muito pouco. Prefiro o tricot.

Joaquim – Reparem, como eu costumo dizer, nós, os dentistas, temos uma vantagem sobre os psicanalistas: no meu consultório o doente também chega, deita-se e abre a boca… Mas só tem o direito de me ouvir!

Carmo – Não vês que estás a chatear os nossos vizinhos com as tuas histórias?…

Maria – Não, não nos maça nada…!

Carmo – E se nos falassem de vocês… (Para Maria) Você é professora, não é?

Maria – De solfejo, sim… Mas não estou segura de que seja mais interessante…

Pedro olha para a mulher fazendo-lhe ver que percebeu a intenção da mentira.

Carmo – Ah, o solfejo… Estudei isso durante mais de 10 anos quando era jovem…

Maria – E tocava algum instrumento?

Carmo – Não, nem sequer um… Os meus pais deviam pensar que o solfejo era uma língua morta. Como o latim e o grego. Mas quando fiz 18 anos disse: chega!

Pedro (irónico) – Estou a ver que era uma adolescente um pouco rebelde, diga lá…

Carmo – Depois inscrevi-me num curso de danças de salão.

Maria – Mas que mudança…

Joaquim (ternamente) – Foi lá que nos conhecemos, Carmo e eu…

Maria (fazendo de conta que está interessada) – Não me diga?

Joaquim – Sim, sim… Nessa época eu dançava muito bem, sabe… Ainda agora não danço nada mal… Parece que 40% dos homens conheceram as suas mulheres convidando-as para dançar. (Para Pedro) Também foi assim que seduziu a sua encantadora mulher…

Pedro – Não, nada disso… Comecei por agarrá-la à bruta, num portão, num dia de temporal, depois de lhe ter proposto abrigar-se no meu chapéu-de-chuva… Parece que são raros os casais que se conheceram desta maneira…

Silêncio embaraçante.

Maria – O meu marido está a brincar, claro…

Pedro – Ela detesta que eu conte isto…

Maria – Posso servir-vos outro aperitivo?

Carmo – Sim, obrigada… Mas só um dedo…

Pedro – Antes ou… depois do aperitivo?

Maria fulmina Pedro com o olhar e serve de novo os convidados.

Carmo – Nós inscrevemos o Benjamim, o mais novo, no jardim-de-infância aqui do lado. Sabem se tem boa reputação?

Maria – Não sei, não tenho filhos.

Carmo – Ah é verdade. Desculpe…

Pedro – Não se preocupe… Efectivamente a culpa não é sua, pois não?

Silêncio embaraçante.

Carmo – E você Pedro? O que é que você faz?…

Pedro – Eu? Nada…

Ar de conversa de circunstância dos vizinhos

Carmo (conduída) – À procura de emprego…

Pedro – Não, não estou à procura de nada… Eu diria antes… assalariado inactivo. É muito difícil de conseguir lá chegar, sabem? Ter ar de quem trabalha quando não temos nada que fazer… É mesmo preciso ser um bom comediante.

Carmo (embarassada) – Assim sendo… o que é que faz quando não trabalha? Enfim … quero dizer … fora das horas de expediente…

Pedro – Pois bem… Sou mesmo comediante! Com interrupções…

Carmo – Comediante? Ah, pois é, a sua cara não me era estranha… Em que peças entrou?

Pedro – Costumam ver os Morangos com Açúcar na televisão?

Joaquim – Sim, poucas vezes! Passa à hora em que costumo fazer a sesta…

Pedro – Então já viu a publicidade da agência funerária que passa mesmo antes?

Joaquim não tem ar de quem sabe do assunto.

Pedro – Já viu com certeza! Passa entre os aparelhos auditivos e os elevadores especiais para escadas.

Joaquim – Sim, talvez…

Pedro – Pois bem, o tipo no caixão sou eu…

Joaquim – Não me diga…?

Pedro – Uma espécie de papel de decomposição, digamos…

Olhar furioso de Maria para Pedro.

Carmo – E tirando isso, tem outros projectos…?

Ouve-se a campainha da porta.

Joaquim – Estão à espera de mais convidados?

Maria – Não… Não estamos à espera de mais ninguém…

Pedro vai abrir.

Pedro (off) – Já… Está bem, desculpe, já volto…

Pedro regressa com os calendários dos Correios.

Pedro – É o carteiro, peditório de Natal…

Joaquim – Estão muito avançados este ano… Tem a certeza de que é mesmo um carteiro…?

Pedro – É um tipo com uma farda igualzinha àquela que usa o carteiro que me traz a correspondência todos os dias…

Joaquim – Ah…

Pedro – Não tem por acaso uma nota de dez? É que não tenho nenhum dinheiro trocado… Pago-lhe daqui a um bocado…

Joaquim, reticente, vasculha as algibeiras sem grande vontade.

Joaquim – Que estupidez, dei a última nota de cinco para comprar o espumante. Tenho uma moeda de dois, se quiser…

Pedro – Sendo assim… Vou-lhe dar a garrafa que nos trouxeram… Se não se importarem?

Joaquim – Não… não nos importamos nada…

Pedro passa os calendários a Joaquim.

Pedro – Então só tem que escolher…

Enquanto Pedro vai recuperar a garrafa ao frigorífico, Joaquim tira os óculos de ver ao perto e olha para os calendários com um ar sério e exagerado

Joaquim – Acho que vou ficar com este dos 3 gatinhos… São amorosos… Não achas, Carmo?

Pedro regressa com a garrafa de espumante.

Pedro – Pode ficar com o calendário… Uma vez que o carteiro vai levar a sua garrafa…

Joaquim – Muito obrigado…

Pedro sai com os restantes calendários e a garrafa.

Pedro (off) – Pronto, está mesmo fresquinho… E um Feliz Natal…

Pedro regressa.

Carmo – Feliz Natal… Em pleno mês de Outubro…Estão doidos varridos…

Pedro – Deve ser do aquecimento global … Já não há estações… Até os carteiros andam completamente desorientados…

Maria – Acho que vou ver como está o meu porco com ameixas. Tenho a impressão de que cheira a gás…

Joaquim (levantando-se) – E eu aproveito para dar um pulinho a casa e ver se as crianças estão bem. Antes de passarmos à mesa…

Maria – Vá, esteja à vontade…

Joaquim – Não se incomode que eu conheço o caminho.

Carmo (levantando-se também) – Diga-me por favor, onde é que posso lavar as mãos? Os amendoins… São sempre um pouco gordurosos…

Maria – Claro que sim. A porta mesmo ao fundo do corredor…

Joaquim e Carmo saiem.

Maria – O que é que te deu para lhes dizeres que fizeste de morto na publicidade da agência funerária (Imitando ironicamente Pedro) Uma espécie de papel de decomposição…

Pedro – Oh, foi para eles se ambientarem mais, porque, francamente, o clima estava… Terrível, não? E ainda só vamos nos aperitivos… Acho que não aguento assim até à sobremesa, já te digo…

Maria – É verdade que eles não são lá muito interessantes, mas…

Pedro – Não mesmo, é preciso inventar qualquer coisa que os afugente.

Maria – Agora é demasiado tarde para anular o jantar. Não os voltamos a convidar e pronto.

Pedro – Espera, mas eles vão com certeza convidar-nos, vais ver… Ou julgas que nos vamos safar assim sem mais nem menos. Accionaste uma engrenagem infernal e agora… Não percebes?

Maria – Bolas, estás a exagerar… Bem, vou tentar acelerar o serviço… Olha, vai abrindo a garrafa de vinho enquanto esperamos…

Pedro – Pelo menos consegui livrar-me do espumante. Provoca-me gases…

Maria vai para a cozinha. Pedro agarra na garrafa de vinho. Carmo regressa.

Carmo – Foi muito simpático da vossa parte terem-nos convidade para nos conhecermos melhor… Há muito tempo morei aqui na zona, quando estava no 2º ciclo, mas já não conheço ninguém… E além disso, como vizinhos, podemos sempre ajudar-nos mutuamente…

Pedro – Pois, é isso mesmo que a minha mulher diz… (Uma ideia começa a germinar na sua cabeça) Fico mesmo contente que diga isso… Vem mesmo a calhar porque tenho uma coisa para lhe pedir.

Pedro passa-lhe a garrafa.

Pedro – Tome lá, não se importa de a abrir, não sei se ainda tenho força…

Carmo, intrigada, começa a tentar abrir a garrafa. Sem qualquer jeito, faz esforços para tirar a rolha.

Pedro – Não queria de todo estragar a noite, mas… tenho um cancro…

Surpreendida, Carmo tira a rolha de uma só vez. Pedro recupera a garrafa e serve o vinho, continuando com as suas explicações

Pedro – Acabo de saber que tenho um tumor… Devo ter ultrapassado os 15 minutos…

Carmo – Os 15 minutos…?

Pedro – O telemóvel, sabe… As… As radiações. Devia ser um modelo antigo…

Carmo (condoída) – No cérebro…

Pedro – Pior

Carmo olha para ele, interrogando-se sobre o que poderá ser pior.

Pedro – Nos testículos…

Carmo (horrorizada) – Não me diga…!

Pedro – Sabe, o kit de mãos livres protege a cabeça mas faz com que o problema se desloque…

Carmo – Estou verdadeiramente desolada…

Pedro (levantando o copo para fazer uma saúde) – Vamos lá, à sua… Não nos vamos deixar abater…

Tocam no copo um do outro num ambiente sinistro.

Carmo – Mas… Agora já há tratamentos…

Pedro – Sim… Mas o meu cirurgião está a pensar num transplante… (Pausa) E foi precisamente por isso que pedi à minha mulher para vos convidar… A si e ao seu marido…

Consternação de Carmo.

Pedro – Um pouco mais de vinho?

Carmo, que bem precisa de algo para se animar, não recusa. Ele enche o copo até à borda e ela bebe-o de um só trago.

Carmo – É bom este vinho, não é?

Pedro – Coma uns amendoins…

Carmo serve-se.

Pedro – Então é assim… Preciso de um dador…

Carmo – Um dador…?

Pedro aproxima-se dela e agarra-a pelos ombros.

Pedro – Pode bem viver-se com um só testículo, sabe… A operação é fácil e uma semana depois já nem se pensa nisso. E a cicatriz nem se vê…

Carmo (perplexa) – Quer dizer que… Tenho que falar com o meu marido…Não sei se…

Maria regressa e vê-os naquela posição ambígua.

Carmo (embarassada) – Vou ver se o Joaquim dá conta dos miúdos… Sabem como são os homens…

Ela sai precipitadamente.

Maria – Ora bem… Parece que finalmente simpatizaram um com o outro…

Pedro – Não digas nada, é um pesadelo, é mesmo preciso arranjar uma maneira de nos livrarmos deles…

Maria – O que é que queres que façamos? Não os vamos pôr à porta, fomos nós que os convidámos!

Pedro – Nós…

Maria – Ok, fiz uma asneira, mas o que queres que faça… Como o vinho já está servido… Bolas, esqueci-me do pão…

Antes de voltar à cozinha, Maria dá uma vista de olhos na Caras.

Maria (decepcionada) – Não ficou tão bonito como o da fotografia da receita da Caras…

Pedro – Se pensas que todas as mulheres que vês na rua se parecem com as modelos que se vêm nas revistas… Não vejo porque é que não se pode passar o mesmo com o teu porco com ameixas…

Maria encolhe os ombros e sai, contrariada, mas volta-se para Pedro antes de se dirigir para a cozinha.

Maria – Mesmo assim, tenta ser um pouco mais amável com eles…

Pedro – Para ficarem grudados a nós?

Maria – Se calhar vão ser nossos vizinhos durante vinte anos. Seria uma pena zangarmo-nos com eles logo à chegada…

Pedro – A melhor maneira de ter boas relações com os vizinhos é nunca lhes dirigirmos palavra…

Maria prepara-se para voltar à cozinha.

Maria – Já agora, viste por acaso o gato?

Pedro (embarassado) – Não o vejo desde esta manhã…

Maria – Espero que a tua planta verde não seja tóxica.

Maria sai. Joaquim regressa.

Joaquim – Carmo foi deitar o mais pequeno e já volta. Os outros dois ficaram a ver televisão…

Pedro – Strip Poker…?

 

Joaquim – As Loucas Aventuras do Rabbi Jacob… O meu filme preferido… Mnham, mnham… Cheira tão bem! (Agarrando o ombro de Pedro) Tenho a certeza de que vamos simpatizar um com o outro… Além disso, a vantagem dos convites entre vizinhos é que não temos que nos deslocar de carro… Temos todo o tempo… e não nos arriscamos a ter que soprar o balão!

Pedro – Diga-me Joaquim… Posso tratá-lo por Joaquim?

Joaquim – Claro que sim, Pedro. Entre vizinhos…

Pedro – Você é tão simpático. Tinha uma pequena proposta para lhe fazer. Eu e a minha mulher…

Joaquim (intrigado) – Sim?

Pedro – Já ouviu falar de… swing?

Joaquim (siderado) – Vagamente…

Pedro – Pois bem, a minha mulher e eu… Claro, se quiserem… Não se sintam obrigados, ok? Em geral, fazêmo-lo entre a sobremesa e o café… Por isso, se não estiverem interessados… Basta-vos sair quando servirmos os queijos. Nós compreenderemos…

Joaquim fica atrapalhado. Carmo regressa.

Carmo – Pronto! Vamos poder passar uma noite tranquila… só os quatro…

Carmo repara no mal-estar de Joaquim.

Carmo – Não te sentes bem?

Joaquim – Sinto-me bem, sim… Estávamos a falar… do comércio livre. Da globalização, das deslocalizações… Sabem que a minha mulher também é adepta do swing?

Carmo (rectificando, incomodada) – Do comércio livre…

Maria chega da cozinha com o porco com ameixas.

Maria – Pronto, se não têm nada contra a carne de porco, podemos passar à mesa…

Sentam-se à mesa num silêncio embaraçoso.

Maria – Carmo, fica à direita do meu marido…

Carmo obedece sob o olhar inquieto de Joaquim. Maria serve os convidados.

Carmo – A carne está com um aspecto muito apetitoso…

Maria prepara-se para servir Pedro.

Pedro – Não quero, obrigado…

Maria – Não tens fome?

Pedro – Nem por isso… E a carne sempre me causou um pouco de repugnância. A vocês não…?

Joaquim e Carmo olham para boquiabertos.

Pedro – Sabem que, geneticamente, o porco é o animal que mais se aproxima do homem? Efectivamente o homem só tem alguns genes diferentes dos do porco. E poucos…

Os convidados, desmotivados com a conversa, comem com menos apetite. Maria muda de assunto.

Maria – E você, Carmo? Não nos chegou a dizer o que faz…

Carmo – Tenho sempre algum receio em dizer o que faço… Nos tempos que correm não é muito bem visto…

Pedro – Faz strip-tease… ou é mecânica numa garagem?

Carmo – Pior… Sou… (Enfática) Cost Killer.

Incompreensão por parte de Pedro e Maria.

Joaquim – Estratégia empresarial…

Maria – E isso é exactamente o quê?

Carmo – É assim… Como consultora, sou chamada por empresas em dificuldades financeiras para cortar os ramos mortos e deixar que os novos possam florescer livremente…

Maria (impressionada) – Parece-me interessante…

Joaquim – A minha mulher faz cair as cabeças! É uma espécie de Marquês de Pombal nas perseguições que fez. Uma pasionaria do swing.

Carmo (rectificando) – Do comércio livre…

Joaquim – Sim… Com certeza…

Maria – E quais foram as cabeças que últimamente decidiu cortar com a serra eléctrica?

Carmo – Até agora, foram sobretudo empresas privadas que requisitaram os meus serviços. Mas recentemente estou a ser solicitada pelo sector público. Aliás, acabam de me confiar uma nova missão…

Maria – Por favor tranquilize-me! Não vão atacar a Educação… Porque, se assim for, presumo que começarão por guilhotinar os professores de solfejo…

Carmo – Não se ria, porque mais cedo ou mais tarde acontecerá. Mas não, desta vez trata-se de um outro elefante branco que tenho que desmembrar.

Maria – Não se trata do Partido Socialista, pois não?

Carmo (com ar satisfeito) – A Biblioteca Nacional.

Pedro sufoca.

Pedro – A Biblioteca Nacional…!

Carmo – Nem preciso dizer que isto fica aqui entre nós… Começo amanhã de manhã e ainda ninguém sabe. Farei uma selecção dos empregados e não ficarão senão os elementos mais produtivos… Os outros serão substituídos por computadores…

Joaquim – A minha mulher é uma assassina. Quando tiver acabado com a Biblioteca Nacional, metade do pessoal terá sido eliminado… pelo menos!

Maria fica sem voz e Pedro quase desmaia.

Carmo – Mas estou a chatear-vos com isto tudo… O vosso porco com ameixas está excelente. Dá-me a receita?

Joaquim levanta-se.

Joaquim – Dão-me licença? Tenho que ir à casa de banho antes de atacarmos a sobremesa… Deve ter sido das ameixas…

Carmo – E eu aproveito para ir ver se as crianças não estão a ver porcalhonices nos canais porno. Não estão no nosso pacote mas às vezes dá para ver…

Enquanto Joaquim e Carmo saiem.

Pedro (desgraçado) – Já viste que bom… Vou estar na primeira linha para o cadafalso…

Maria – Se não te tivesses vangloriado de ser pago para não fazer nada… (Imitando-o) É mesmo preciso ser um bom comediante…

Pedro (possuído) – Espera lá, como é que eu podia adivinhar que ela era uma cortadora de cabeças? Com aquele ar inofensivo… E, relembro-te, foste tu quem a convidou! Se me tivesses dito que a mulher do Pol Pot vinha jantar cá a casa hoje, teria desconfiado…

Maria – Agora já nem sei muito bem como é que podemos encarrilar…

Pedro – Sobretudo porque propus ao marido uma troca de casais para a sobremesa…

Maria – Desculpa?

Pedro – Era para eles se porem a andar mais depressa…

Maria (chateada) – Obrigadinha, foi muito simpático para mim… Assim, não só vai pensar que és um parasita como também um tarado sexual… E se aceitassem…

Pedro – Só falei disso ao marido… E olha que ele ainda não disse que não… Só que agora é preciso fazer de tudo para que não se vão embora e tentar recompor as coisas…

Maria, à beira de uma crise de nervos, acende um cigarro.

Maria – Acho que hoje não é o dia certo para deixar de fumar.

Maria inalou avidamente uma bafurada.

Maria (voluptuosamente) – Ai que bom…

Pedro olha para ela, perturbado, mas aguenta-se.

Pedro – Ouve lá, ao ponto a que chegámos, só vejo uma solução…

Maria – O gás, como os vizinhos da frente…?

Pedro – Ela ainda não sabe que eu trabalho na Biblioteca Nacional… Durante o resto da noite, temos mesmo de arranjar alguma coisa que a comprometa …

Maria – E como é que pensas fazer isso? Não me vais com certeza pedir que aceite a proposta indecente que fizeste ao marido dela, para podermos fazer chantagem e assegurar o teu emprego?

Pedro – Não, se pudermos evitar… Para já podíamos fazê-la beber… Essa aí deve ter alguma coisa a esconder… com o seu ar de não me toques.

Maria – Fazê-la beber? Achas mesmo que isso será suficiente para ela subir para cima da mesa e fazer-nos uma confissão pública, do tipo Revolução Cultural? Não, para a obrigar a falar… Tirando meter-lhe a cabeça no forno, não vejo nada… Era preciso que eu a atraísse à cozinha enquanto tu neutralizarias o marido…

Pedro – Uma confissão pública… Tenho uma ideia…

Maria – Qual…?

Pedro – Strip Poker!

Maria – Queres propor-lhes um strip poker ?

Pedro – Strip Poker, a emissão da TVCabo! Quando ela já tiver bebido bem, propomos uma partida.

Maria (inquieta) – Que género de partida?

Pedro – Como castigo, aquele que perder deve responder a uma pergunta indiscreta. Um jogo da verdade, em suma! Ela gosta de luta, tenho a certeza de que com uns copitos a mais vai aceitar…

Maria (inquieta) – A verdade é que eu nem sei jogar bem ao poker…

Pedro – Tens coisas a esconder?

Maria – Não especialmente, mas…

Pedro – Então?!

Joaquim e Carmo regressam.

Joaquim – Agora já estou melhor!

Maria – Óptimo, assim podemos passar à sobremesa…

Embaraço de Joaquim.

Joaquim – Já começa a ser tarde, não acham? Se calhar não vamos incomodá-los muito mais tempo…

Carmo (admirada) – Por amor de Deus, Joaquim, não vamos sair como se fossemos ladrões…

Pedro (repentinamente amável) – Mas não incomodam nada! Depois podemos fazer um jogo de sociedade… Gostam de jogos de sociedade?

Carmo – Agora tocaram no meu ponto fraco! Sou uma jogadora… não sou, Joaquim?

Escuro.

 

ACTO 3

 

Ambiente de casa de fumo. Estão os quatro sentados, beata na boca e um pouco descompostos, numa mesa de poker iluminada por um candeeiro, como nos filmes. Sob o olhar impressionado de Joaquim e Carmo, Maria baralha as cartas com a virtuosidade de um croupier de casino.

Pedro – Como não temos fichas jogamos com botões, ok? Então não há dúvidas? No fim de cada partida aquele que tiver mais botões tem o direito de fazer uma pergunta ao que tiver menos…

Os outros opinam.

Joaquim – Enquanto não forem os botões das calças. Tirando o que está por baixo, nada tenho a esconder.

Pedro – Todos temos qualquer coisa a esconder… Se procurarmos bem… O que é preciso é escolher boas perguntas…

A atmosfera fica mais pesada. Os quatro jogadores apostam. Joaquim corta. Maria dá as cartas.

Pedro – Posso servir-vos um digestivo…?

Carmo – Porque não? Um pequeno excesso de vez em quando…

Joaquim – Se calhar não é muito aconselhável, não acham? Sabem que agora podemos ser condenados de deixarmos os nossos convidados partir quando estão a cair de bêbados…

Pedro – Mas foram vocês que disseram que não vão conduzir. Moram mesmo aqui em frente…

Joaquim – Ao lado…

Pedro – Assim sendo nem sequer se arriscam a ser atropelados ao atravessarem a rua… Mas, se preferirem, podem ficar a dormir connosco…

Ar embarrassado de Joaquim.

Carmo (despejando o copo de uma só vez) – Hum… Sabe mesmo a pera…!

Sorriso forçado de Joaquim. Maria acaba de dar as cartas. Cada um olha para o seu jogo e observa os outros.

Pedro – Duas cartas…

Maria dá-lhe as cartas.

Carmo – Três…

Joaquim – Uma…

Maria – Estou bem…

Voltam todos a olhar para os seus jogos. Entreolham-se. E falam, cada um de cada vez.

Pedro – Saio…

Joaquim – Eu também…

Carmo – Aposto mais dois.

Maria – Pago para ver…

Carmo mostra o jogo com uma excitação infantil.

Carmo – Poker de Ases! Quem tem mais?

Maria (desfeita) – Trio de valetes…

Carmo apanha as apostas. Cada um olha para os botões que lhe restam.

Carmo – Sou eu a fazer uma pergunta…

Mal-estar dos outros, enquanto contam os seus botões. Maria, que é quem tem menos, fica com cara de caso.

Carmo – Portanto é para a Maria!

Alívio de Pedro e Joaquim.

Carmo – A Maria tem que dizer-nos a verdade…

Maria (inquieta) – Força…

Carmo – Já alguma vez roubou numa loja?

Maria até fica aliviada.

Maria – Sim… Uma vez… Uma tenda…

Carmo – Uma tenda…?

Maria – Sim, uma tenda de campismo!

Joaquim – Que coisa… Nunca me passaria pela cabeça roubar uma coisa dessas! Uma tenda de campismo dá nas vistas, não?

Carmo – Uma tenda…? Foi… Por necessidade? Não sabia onde dormir…

Maria – Foi para ir acampar! Estava num centro comercial… Fui a uma caixa para pagar. Disseram-me que era noutra caixa. Fui à procura da caixa certa e quando dei por mim tinha passado pelos pórticos de segurança sem dar por isso. E estava na rua…

Pedro – Não foi propriamente um roubo… Porque não tinhas intenção de roubar essa tenda…

Maria – Digamos que não voltei atrás para pagar… Na verdade tive medo que voltando a passar nos pórticos o alarme disparasse. Seria demasiado estúpido ser apanhada ao tentar reentrar na loja com uma tenda que acabara de roubar inadvertidamente… Imaginam-me a explicar isto aos seguranças? Normalmente não são muito imaginativos…

Os outros ficam com cara de quem imagina a situação.

Carmo – Foi mesmo a única vez?

Maria – Sim…

Carmo – Então pode dizer-se que você é uma mulher honesta…

Maria – Sabe uma coisa, a maioria das pessoas só são honestas porque não têm corgem para ser desonestas… Digamos que o risco nunca me pareceu proporcional à satisfacção que o roubo me poderia dar…

Joaquim (já com os copos) – Como enganar o marido?

Maria – Isso é uma nova pergunta…

Joaquim – Tem razão…

Começa uma nova partida. Mesma preparação. Apostam. É a vez de Pedro dar.

Carmo – Uma carta…

Joaquim – Estou bem…

Maria – Eu também…

Pedro – Duas cartas…

Apostam de novo.

Carmo – Estou em jogo…

Joaquim – Eu também…

Maria – Saio…

Pedro – Pago para ver…

Mostram os jogos.

Pedro (triunfante) – Full!

Joaquim – Sequência de cor!

O sorriso de Pedro fica gelado. Maria olha-o ironicamente.

Maria – Isto começa bem…

Joaquim apanha as apostas.

Joaquim – É a minha vez de fazer uma pergunta…

Os outros três, na defensiva, contam os seus botões.

Joaquim – É para o Pedro…

Ar resignado de Pedro.

Joaquim – Já alguma vez teve vontade de matar alguém?

Pedro – Quer dizer antes desta noite?

Joaquim – Com uma acção prévia de passagem ao acto propriamente dito, claro

Carmo – Senão não conta.

Joaquim – Se prendessem todos os maridos que têm vontade de matar as suas mulheres pelo menos uma vez por semana… As prisões estariam sobrelotadas…

A mulher dele lança-lhe um olhar fulminante. Pedro tenta lembrar-se.

Pedro – Não, não estou a ver… (Rindo) Ah sim… Enfim, não foi verdadeiramente premeditado, mas… Foi no 2º ciclo… Havia uma miúda de óculos que me estava sempre a chatear. Um dia, na piscina, atirámos os óculos dela para a água. Ela não sabia nadar. Mas, em pânico, esqueceu-se e lançou-se à água para recuperar os óculos. Nós divertíamo-nos à grande. Claro que, ao fim de cinco minutos, como ela não viesse à superfície, chamámos o nadador salvador… O que nós gozámos… Já nem me lembro o nome da pobre rapariga…

Carmo – Carmo Pimentel…

Pedro (petrificado) – Sim, talvez…

Carmo – A miúda dos óculos era eu…

Pedro – Não… !?

Carmo – Sabia, eu sabia muito bem que a sua cara não me era estranha…

Joaquim intervem para desanuviar o ambiente.

Joaquim – Bom… Mais uma partidinha?

Outra partida. Sem convicção. E num silêncio pesado. Carmo dá as cartas.

Joaquim – Saio.

Maria – Estou bem…

Pedro – Também saio.

Carmo – Aposto dez…

Maria – Jogo… E aposto mai dez…

Carmo (apostando) – Pago para ver.

Carmo e Maria mostram os jogos. Sorriso de satisfacção de Maria. Ar de derrota de Carmo.

Maria – Ah, desta vez sou eu a fazer uma pergunta… À Carmo…

Inquietação de Carmo.

Maria – Já alguma vez cometeu um erro profissional grave que não tenha confessado a ninguém?

Carmo fica muito mal. Dirige-se para a boca de cena como se fosse fazer uma confissão. Mas, em vez de falar, tira a camisola.

Escuro.

A luz acende-se de novo e Carmo continua na berlinda, na boca de cena. Percebe-se que perdeu outra vez.

Maria – Reitero a minha pergunta… Alguma vez cometeu um erro profissional grave…?

Carmo prepara-se para tirar a parte de baixo mas desiste e começa a falar com uma voz quase inaudível.

Carmo (muito baixo) – Sim…

Maria – Desculpe?

Carmo – Sim!

Maria – Qual?

Carmo – Pronto, vou contar. Mas isto não sai daqui… Prometem…?

Pedro e Maria acenam hipocritamente com a cabeça.

Pedro – Pense que está numa igreja e que nós somos o seu confessor…

O ambiente de fumo não podia estar mais pesado.

Joaquim (divertido) – Uma igreja…?

Maria – Ou uma sinagoga, se preferiem.

Carmo – Mas há confessionários nas sinagogas?

Pedro (perdendo a paciência) – Eu sei lá… Imagine-se onde quiser…

Carmo – Bem, então… Foi mais ou menos há seis meses. Durante uma das minhas missões, fiz demitir um quadro superior e a sua companheira. Trabalhavam ambos na mesma companhia, na companhia que eu estava a auditar. Eu tinha a certeza de que eles roubavam dinheiro da caixa. O tipo não aguentou. Trabalhava na empresa há vinte anos. Suicidou-se. Com a sua mulher…

Troca de olhares de satisfacção entre Pedro e Maria. Têm motivo para comprometer Carmo.

Carmo – Abrindo o gás…

Pedro (a medo) – Os vizinhos da frente…!

Carmo – Perdão?

Pedro – Não, nada…

Carmo – Logo depois do enterro, dei-me conta de que não eram culpados… Eu tinha simplesmente errado uma conta de somar… E não disse nada a ninguém… Não fiz nada para os reabilitar, pobres coitados… Estava demasiado envergonhada… (Em lágrimas) Normalmente não me engano nas somas…

Joaquim consola-a.

Joaquim (para Pedro e Maria) Ela fica sempre abalada quando se fala nisto… (Tentando consolar a mulher) Queres ir para casa, querida…?

Pedro e Maria trocam olhares coniventes.

Maria – Sim, já chega, talvez…

Carmo (recompondo-se) – Não, não, não quero estragar-vos a noite… Isto vai passar. E nunca se deixa uma partida de poker assim. (Com um ar inquietante) Ainda nem todos falaram…

Carmo esvazia o copo de uma só vez para esquecer os remorsos.

Pedro – Assim sendo…

Joaquim dá as cartas… Voltam a jogar em silêncio. O ambiente está cada vez mais pesado.

Maria – Carta…

Pedro – Estou bem…

Carmo – Vou a jogo…

Joaquim – Pago para ver…

Mostram as cartas.

Carmo – Tenho um par…

Joaquim – Trio…

Maria – Poker de damas…

Pedro (triunfante) – Poker de reis!

Mal-estar dos outros.

Pedro – Joaquim… Por acaso sabe o que aconteceu ao gato que esta manhã vi no caixote do lixo…

Estupefacção de Maria. Embaraço de Joaquim e de Carmo.

Pedro – Tem que dizer a verdade…

Joaquim dirige-se para a boca de cena como para uma confissão. Mas, em vez de falar, tira as calças e fica em cuecas.

Escuro.

A luz acende-se de novo e Joaquim continua na berlinda, na boca de cena. Percebe-se que perdeu outra vez.

Pedro – Então, o gato?

Joaquim prepara-separa tirar as cuecas mas Carmo responde por ele.

Carmo – Ele já me tinha comido três plantas verdes na varanda… Então, na véspera, reguei a quarta com arsénico.

Maria desata a chorar.

Pedro – Oh, meu Deus ! O gatinho está morto…

Mal-estar.

Joaquim (para aligeirar o ambiente) – Um último jogo? Para me refazer…

Carmo – Está bem, mas depois vamos todos deitar-nos.

Espanto dos outros não sabendo como interpretar esta última réplica.

Nova partida. Pingas. Maria dá de novo as cartas. Apostas. Rostos ainda mais tensos.

Pedro – Carta.

Carmo – Carta.

Joaquim – Estou bem.

Maria – Carta.

Joaquim aposta os botões todos.

Joaquim – Encavo!

Maria – Saio…

Pedro – Saio…

Carmo – Eu também…

Joaquim recolhe as apostas. A sua cara ilumina-se. Maria, horrorizada, constata ser ela quem menos botões tem.

Joaquim – Agora sou eu a fazer uma pergunta…

Maria (em pânico) – Mas você não nos mostrou o seu jogo…!

Joaquim – Não sou obrigado! Vocês desistiram todos!

Olha para os outros três, um por um, para manter o suspense.

Joaquim – É a Maria que tem menos botões… Por isso aqui vai…

Mal-estar de Maria.

Joaquim (sem piedade) – Alguma vez enganou o seu marido?

Maria fica calada. Pedro, inquieto, olha para ela.

Carmo – Todos nós jogámos o jogo. Você deve-nos a verdade…

Maria avança para a boca de cena e tira a camisola.

Escuro.

Luz.

Joaquim (sem piedade) – Já alguma vez enganou o seu marido?

Maria, cada vez mais incomodada, tira a parte de baixo e fica em combinação.

Escuro.

Luz.

Joaquim (sem piedade) – Já alguma vez enganou o seu marido?

Maria esboça um gesto para tirar a combinação e depois prefere falar

Maria – Uma vez… Só uma vez muito pequenina… Foi… um erro.

Pedro fica destroçado.

Carmo (cruel) – Um erro? Como com a tenda?

Maria – Sim, pode dizer-se que sim…

Joaquim – Mesmo assim… Uma pessoa não se engana de marido como se engana num número de telefone.

Carmo – E mesmo quando marcamos mal um número, podemos desligar antes da outra pessoa atender e começar a falar…

Maria – Digamos que não tive a presença de espirito para desligar o telefone na cara enquanto podia… Sou conversadora, ao telefone…

Carmo – E tinha contado ao seu marido antes desta noite?

Maria – Não…

Carmo – Porquê?

Maria – Consegui passar as barreiras de segurança antes do alarme tocar… e não tive coragem de voltar atrás para pagar a conta…

Mal-estar. Pedro e Maria evitam olhar um para o outro.

Joaquim – Bom… Se calhar vamos andando…

Pedro (para Joaquim) – Você fez bluff?

Joaquim, contente consigo próprio, mostra as cartas.

Joaquim – Só tinha um par pequeno…

Carmo e Joaquim levantam-se e preparam-se para ir embora.

Joaquim (para Pedro) – Eu também tenho uma pequena pergunta para lhe fazer…

Pedro – O jogo já acabou.

Joaquim – Mostrei-lhe o meu par…

Pedro – Vá lá, pergunte…

Joaquim – Você é mesmo comediante?

Pedro – Não, mas escrevo peças de teatro. Durante as horas de trabalho… na Biblioteca Nacional…

Carmo – Estou a ver… Posso contar com a vossa discrição…?

Pedro – A propósito dos vizinhos da frente…? Se disser no seu relatório que eu sou o empregado mais produtivo da casa e que em caso algum posso ser substituído por um computador…

Carmo encaixa o golpe.

Carmo – Não se importam que vá à cozinha buscar um copo de água? Não me sinto muito bem…

Maria – Com certeza, faça o favor…

Carmo afasta-se em direcção à cozinha.

Joaquim – A próxima vez convidamos nós… Jogaremos um Scrabble, para variar um pouco…

Carmo regressa.

Joaquim – Então até logo?

Pedro (para Carmo) – Até amanhã…?

Os vizinhos partem. Pedro e Maria mal ousam olhar um para o outro. O portátil de Maria começa a tocar.

Pedro – Não atendes?

Maria – Nem sei se é para mim ou para ti. Deste o meu número a todos os teus amigos…

Pedro – Porque tenho confiança em ti…

Embaraço de Maria.

Pedro (mais a sério) – Quem era… o teu número falso?

Maria – O Francisco…

Pedro – Essa agora… Nunca desconfiaria dele…

Maria abraça Pedro para lhe pedir perdão.

Maria – Então, sempre fazemos o strip-poker ?

Pedro – Encavo!

Música sugestiva. Ela começa um strip-tease. Ele olha para ela, animado. Senta-se para vê-la fazer o seu show e tira um charuto, preparando-se para o acender com um fósforo que tira duma caixa.

Um instante e vê-se aparecer a cara de Carmo que os espia… com uma máscara de gás da última guerra na cara. Depois Carmo desaparece.

Maria para de repente, ao mesmo tempo que a música.

Maria (inquieta) – Não achas que cheira a gás?

Ele faz sinal de ignorar e acende o fósforo para o charuto. Escuro seguido de um flash e de um barulho de explosão.

Fim

 

 

Autor

Nascido em 1955 em Auvers-sur-Oise (França), Jean-Pierre Martinez fez as suas primeiras aparições em palco como baterista de diversos grupos de rock, antes de se tornar publicitário semiólogo. Depois de um período como argumentista para televisão, regressa aos palcos como dramaturgo. Escreveu uma centena de guiões para o pequeno écran e mais de sessenta comédias para teatro, das quais algumas já são clássicas. Hoje em dia é um dos autores contemporâneos mais representados em França e nos países francófonos. Por outro lado, muitas das suas peças, traduzidas em espanhol e inglês, estão regularmente em cartaz nos Estados Unidos e na América Latina. Jean-Pierre Martinez é diplomado em literatura espanhola e inglesa (Sorbonne), em linguística (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales), em economia (Institut d’Études Politique de Paris) e em guionismo (Conservatoire Européen d’Ecriture Audiovisuelle). Foi sua a decisão de disponibilizar todos os textos das suas peças para download gratuito no seu site La Comédiathèque : http://comediatheque.net

 

Peça de Teatro do mesmo autor em português

Sexta-Feira 13 (Vendredi 13)

Uma herança pesada (Héritage à tous les étages)

 

 

Pode fazer-se download gratuito

de todas as peças de Jean-Pierre Martinez

no seu site : www.comediatheque.net

 

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adaptação e reprodução são reservados.
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Paris – Janvier 2017

© La Comédi@thèque – ISBN 978-2-37705-075-8

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