Corações abertos

Comédia de Jean-Pierre Martinez

Tradução pelo próprio autor

COMÉDIA DE ESQUETES

Num bar localizado em frente a um hospital e administrado por um proprietário peculiar, os destinos de homens e mulheres se cruzam em busca de um coração disponível. Seja para um transplante ou outra coisa se houver afinidade…


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Entrega de si e doação de órgãos: o coração tem razões que a própria razão desconhece…

No café em frente ao hospital, o dono vê passar médicos, pacientes, casais e famílias, todos confrontados com problemas do coração, tanto em sentido literal como figurado. As doze cenas podem ser representadas separadamente, mas a sua sequência compõe uma verdadeira comédia coral. Algumas personagens reaparecem, as histórias respondem umas às outras e um transplante vai ligando pouco a pouco vários destinos, até ao regresso final da mulher apresentada na primeira cena.

A construção assenta nos dois sentidos da palavra «coração». Cada episódio parte de uma expressão corrente — coração disponível, ter o coração apertado, dar o coração — para a fazer passar do registo sentimental para a realidade anatómica. Este jogo de linguagem não é um simples ornamento: dá origem às situações, provoca os mal-entendidos e permite passar naturalmente da comédia romântica ao humor negro, do drama íntimo à sátira social.

Sob a sua aparente leveza, a peça questiona os dilemas ligados à doação de órgãos: podemos dispor do corpo de alguém que nos é próximo, como escolher entre dois doentes e o que acontece à generosidade quando nela se misturam o interesse, o ciúme ou a corrupção? A medicina não domina o destino mais do que o amor. Em ambos os casos, cada um tem de lidar com o acaso, a culpa e a dívida criada pelo sacrifício de outra pessoa. No entanto, estas questões graves nunca dão lugar a um discurso demonstrativo: surgem através das contradições e das fraquezas profundamente humanas das personagens.

Simultaneamente testemunha, confidente e comentador, o dono do café assegura a unidade do conjunto. O seu estabelecimento transforma-se num observatório onde se vem beber, esperar, desabafar e, por vezes, renascer. O cenário único, o elenco adaptável e a autonomia das cenas oferecem uma grande flexibilidade de representação, enquanto os ecos entre os diferentes episódios conferem ao conjunto uma arquitetura particularmente bem construída. A última cena fecha o círculo com uma segunda oportunidade: com um coração novo, talvez seja possível não repetir a mesma história, mas inventá-la de outra maneira.