Déjà vu (português)

Comédia de Jean-Pierre Martinez

Tradução pelo próprio autor

4 PERSONAGENS : 2 homens e 2 mulheres

Num futuro onde o suicídio assistido foi substituído por uma reciclagem voluntária, um homem e uma mulher, que se conheceram pouco antes do seu recondicionamento, reaparecem na casa totalmente comum do casal já obsoleto que estão destinados a substituir. Restará algum amor quando tudo foi esquecido?

Este texto é disponibilizado gratuitamente para leitura. Antes de qualquer utilização pública, profissional ou amadora, deve ser obtida autorização do autor FORMULARIO DE CONTACTO


FAZER DOWNLOAD GRATIS

Resta alguma coisa do amor… quando esquecemos tudo?

Na véspera da sua «reciclagem voluntária», um homem e uma mulher encontram-se num hotel suíço. Ele escolheu morrer; ela está condenada pela doença. Sabendo que já não têm futuro, aproximam-se e decidem passar juntos as suas últimas horas. Depois do recondicionamento, porém, reaparecem sem qualquer memória na sala de estar de um casal envelhecido que estão destinados a substituir. Pouco a pouco, os recém-chegados aprendem a viver, apropriam-se do espaço e enviam os antigos ocupantes para o mesmo processo de reciclagem.

A peça assenta nesta construção em dois tempos e numa inversão progressiva das posições. Na primeira parte, as duas personagens sabem quem são, mas vão perder a memória; na segunda, já nada sabem sobre si próprias, mas reconstroem pouco a pouco uma existência. Paralelamente, o casal instalado, inicialmente senhor da casa, torna-se progressivamente inútil no seu próprio lar antes de ser declarado «obsoleto» e substituído. O vocabulário informático e comercial — recondicionamento, atualização, modelo antigo — transforma assim o ciclo da vida num procedimento administrativo e faz do ser humano um produto que se substitui quando já não é suficientemente eficiente.

Mas esta mecânica distópica conduz a uma questão mais íntima: o que resta de nós quando as nossas memórias desapareceram? O homem e a mulher recondicionados não se reconhecem, mas voltam a sentir um pelo outro uma atração inexplicável. Até o whisky, de que continuam a não gostar, juntamente com vários outros pormenores, faz emergir algo do encontro anterior sem que regresse qualquer memória consciente. O título Déjà vu adquire então todo o seu sentido: a peça sugere que a identidade talvez não se reduza à memória e que o amor possa subsistir sob a forma de uma inclinação, de uma sensação familiar, de um vínculo cuja história foi esquecida. A sua «segunda oportunidade» encerra assim a peça regressando ao encontro com que ela começara.