Comédia de Jean-Pierre Martinez
Tradução pelo próprio autor
COMÉDIA DE ESQUETES
Um homem e uma mulher no seu jardim. Serão os primeiros ou os últimos? Serão sequer um casal? Só Deus saberia… se já não estivesse morto.
Este texto é disponibilizado gratuitamente para leitura. Antes de qualquer utilização pública, profissional ou amadora, deve ser obtida autorização do autor FORMULARIO DE CONTACTO
Pequena mitologia da vida a dois
Num jardim que pode ser o Éden, uma ilha deserta, um lugar de férias ou o último refúgio antes do apocalipse, Alban e Ève recriam a dois toda a história da humanidade. Ao longo de catorze sketches, são sucessivamente o primeiro casal, um casal comum ou os últimos sobreviventes. Cada cena coloca-os numa nova situação, mas sempre perante a mesma dificuldade: viver juntos num mundo onde não existe mais ninguém.
A peça não desenvolve uma intriga contínua, avançando antes por variações. Cada apagão elimina a situação anterior, enquanto o jardim, a maçã, a solidão do casal ou a possível aparição de uma terceira pessoa asseguram a unidade do conjunto. O diálogo assenta nos mal-entendidos, em raciocínios levados até ao absurdo e no confronto entre considerações metafísicas e preocupações triviais. Assim, um convite sexual põe em causa o futuro da espécie, enquanto uma eleição entre duas pessoas basta para revelar os impasses da democracia.
Reduzido a duas personagens, o casal transforma-se numa sociedade em miniatura. Nele se concentram as questões do desejo, da reprodução, do trabalho, do poder, da ecologia, da velhice e da morte. O mito das origens, despido de toda a solenidade, remete para as inquietações mais contemporâneas. O próprio apocalipse assume a forma de uma última discussão conjugal à volta da derradeira maçã: é precisamente deste contraste entre a dimensão dos desafios e a banalidade das trocas que nascem tanto o humor como a profundidade do texto.
Por detrás do humor negro, a peça não reduz, contudo, a humanidade às suas contradições. Alban e Ève aborrecem-se, mentem um ao outro e discutem, mas continuam unidos pela impossibilidade de viverem um sem o outro. A possibilidade de distribuir os papéis por vários casais acentua esta dimensão universal: já não se trata da história de um homem e de uma mulher, mas das infinitas variações de um mesmo duo humano, desde o início do mundo até ao seu desaparecimento.