Comédia de Jean-Pierre Martinez
Tradução pelo próprio autor
COMÉDIA DE ESQUETES
Desde a pré-história até ao fim do mundo, alguns lampejos das nossas vidas insignificantes.
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Da primeira centelha aos últimos fantasmas da humanidade
Desde a descoberta do fogo até à observação, à distância, de uma Terra onde a humanidade já desapareceu, doze sketches captam alguns momentos aparentemente insignificantes da nossa história. Entre estes dois extremos, casais, crianças, trabalhadores, mortos e até planetas falam do trabalho, do amor, da memória, da doença ou da espera. Cada cena constitui um instantâneo autónomo, enquanto a distribuição flexível permite confiar o conjunto a um número de intérpretes que pode variar entre dois e vinte e quatro.
A coletânea joga constantemente com o contraste entre o tempo individual e a duração do universo. Aquilo que parece decisivo à escala de uma vida torna-se quase insignificante quando inserido na história da espécie. A pré-história é tratada como se já fosse uma época moderna, enquanto as crises contemporâneas, vistas a partir do futuro, não passam de um breve episódio anterior ao desaparecimento da humanidade. A própria construção em sketches traduz esta fragmentação: do tempo que passa restam apenas algumas cenas isoladas, resgatadas ao esquecimento.
A mecânica cómica assenta no anacronismo, no desvio da linguagem e na deslocação de situações familiares. Os homens pré-históricos falam de novas tecnologias, um automóvel sofre com a ausência da sua antiga proprietária e a Terra telefona a Marte para lhe falar da sua infeção pela humanidade. O quotidiano adquire assim uma dimensão metafísica, enquanto as questões mais vertiginosas são reduzidas ao tom banal de uma conversa de casal ou de uma troca profissional.
Por detrás do absurdo desenha-se uma reflexão inquieta sobre o progresso. As técnicas evoluem, mas os seres humanos continuam a trabalhar sem saber muito bem porquê, a esperar por uma vida melhor, a sonhar com riqueza e a acreditar-se imortais. Da pintura rupestre ao retrato transmitido de geração em geração, a arte e a memória tentam, apesar de tudo, conservar um vestígio da sua passagem. A última cena inverte finalmente o olhar: a humanidade já não é mais do que uma luz vinda do passado, observada por outros seres que ainda procuram compreender como uma espécie capaz de tantas invenções conseguiu tornar o seu próprio planeta inabitável.