Crise e castigo
Comédia de Jean-Pierre Martinez
Tradução pelo próprio autor
Essa peça com 7 personagens pode ser interpretada com 4, 5 ou 6 atores se um deles desempenhar diversos papéis.
4 ATORES : 1H/3M, 2H/2M
5 ATORES : 1H/4M, 2H/3M
6 ATORES : 1H/5 M, 2H/4M
7 ATORES : 1H/6M, 2H/5M
Um ator desempregado é contratado por um banco à beira da falência para servir de bode expiatório. O pesadelo acaba de começar…
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Um bode expiatório… no mundo da banca
Jérôme, ator desempregado há vários anos, acredita ter finalmente encontrado um emprego estável num banco. Descobre, porém, que não foi contratado nem pelas suas competências financeiras nem apesar da falta de qualificações, mas precisamente porque o seu perfil faz dele o bode expiatório ideal. O banco, ameaçado de falência depois de ter arruinado alguns dos seus clientes, precisa de alguém sobre quem eles possam descarregar a raiva. Jérôme será, portanto, pago para assumir culpas que não são suas e receber, no lugar dos verdadeiros responsáveis, insultos, bofetadas e, eventualmente, até tiros.
A mecânica teatral leva até ao absurdo este princípio de substituição. Cada nova cliente transforma o gabinete numa arena onde Jérôme tem de representar o papel do culpado, enquanto a hierarquia permanece cuidadosamente protegida. Mas, de tanto ser tratado como um «saco de pancada», acaba por interiorizar a personagem: quando uma cliente vem, pelo contrário, agradecer-lhe por ter aumentado o seu património, é ele quem a agride. O ator desempregado, escolhido pela sua passividade, acaba assim por encontrar paradoxalmente o seu lugar, tornando-se cada vez mais convincente no papel que lhe impuseram.
Por detrás da farsa e da violência burlesca, Crise e Castigo constrói uma sátira do mecanismo do bode expiatório. Quem manda é «responsável por tudo», mas não pode ser culpado de nada; é, portanto, necessário que aquele que se encontra no degrau mais baixo da hierarquia assuma simbolicamente as culpas do sistema. A metáfora religiosa torna-se então literal: Jérôme é comparado a Cristo, promovido a «empregado do mês» sob a imagem de um crucificado, antes de a falência geral exigir um sacrifício ainda mais espetacular. O desfecho em forma de pesadelo não restabelece verdadeiramente a realidade: sugere, pelo contrário, que, tanto no mundo do trabalho como no da finança, o absurdo se tornou a norma.
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