Breves do tempo perdido
Comédia de Jean-Pierre Martinez
Tradução pelo próprio autor
COMÉDIA DE ESQUETES
Sobre o tempo, a vida, a morte, o amor… e o eterno retorno.
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Elogio do tempo perdido
Enquadrada por um despertar enigmático e por um epílogo que repõe simbolicamente o cenário no seu lugar, a peça reúne vinte e cinco sketches dedicados à nossa relação com o tempo. Casais, desconhecidos, viajantes, idosos ou os últimos representantes da humanidade encontram-se, esperam, recordam ou contemplam o seu próprio desaparecimento. Cada cena capta um momento particular da existência, desde o nascimento do desejo até ao fim do mundo.
O conjunto não assenta numa intriga contínua, mas num jogo de variações e ecos. Reaparecem personagens, nomes e motivos: o corvo Babac, as viagens, os relógios, a memória, os primeiros encontros e os últimos instantes. O tempo não avança, portanto, em linha reta. Anda às voltas, desregula-se, apaga-se e recomeça, à imagem do próprio espetáculo, que termina com a promessa de uma próxima representação.
A mecânica cómica consiste muitas vezes em transpor uma situação familiar para um universo deslocado. Uma viagem interplanetária reserva-se como umas férias, a Terra é posta à venda como um imóvel, um limite de velocidade penaliza os condutores demasiado lentos e um relógio transforma-se num misterioso vestígio arqueológico. Os raciocínios seguem uma lógica rigorosa até ao absurdo, enquanto as grandes questões metafísicas são reduzidas às preocupações mais triviais.
Sob esta fantasia surge uma reflexão mais melancólica sobre a memória, o envelhecimento e o desaparecimento. As personagens procuram reter um amor, uma recordação ou apenas mais alguns minutos, mas só podem saber que um momento foi o último depois de ele ter passado. O teatro torna-se então uma metáfora da existência: cada um entra em cena sem conhecer o seu papel, atravessa alguns instantes de luz e depois desaparece na escuridão. Mas, ao contrário da vida, a representação pode sempre recomeçar, como se o tempo perdido pudesse voltar a ser representado.
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