SEXTA-FEIRA 13

 

Comédia de Jean-Pierre Martinez

traduzida por Concha Sousa Martins

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3 ou 4 PERSONAGENS

Pedro – Cristina – Alice Jorge (opcional)

Estão disponíveis adaptações desta peça para

2 homens e 1 mulher, 3 homens ou 3 mulheres.

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Esta comédia de sucesso já foi representada em teatros de todo mundo :

Paris, Avignon, Madrid, New-York, Los Angeles, Miami…

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Jorge e Alice convidam um casal amigo para jantar. Mas a mulher chega sózinha, desfeita. Acaba de saber que o avião onde vinha o seu marido se despenhou no mar. Acompanhando as notícias com a potencial viúva para saber se o seu marido faz ou não parte dos sobreviventes, o casal recebe a notícia de que foi o grande e único vencedor do jackpot do euromilhões de sexta-feira 13. Mas têm de esconder a sua euforia. É de prever um sem número de reviravoltas durante este tão movimentado serão…

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Este texto é disponibilizado gratuitamente para leitura.

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Sexta-Feira 13

Uma sala de estar de um apartamento burguês de esquerda. Uma pintura vanguardista no chão, encostada à parede do fundo. O resto já encaixotado. Num canto, uma árvore de Natal enfeitada. Ninguém em cena. O telefone toca e ouve-se uma mensagem automática de atendimento:

Pedro (voz off) – Bom dia! Ligou para Pedro e Cristina. Neste momento não podemos atender. Estamos retidos na Autoridade Tributária por causa de uma fraude fiscal. Mas pode deixar uma mensagem depois do sinal sonoro. Nós ligaremos logo que nos libertarem. Deixem a vossa mensagem depois do sinal sonoro…

Sinal sonoro seguido da mensagem de atendimento:

Jorge (voz off) – Sim, olá, daqui fala Jorge. Tudo bem? Mas que idiota que sou, tu não podes responder… Pronto, é só para dizer que a combinação para esta noite se mantem, mas…

Pedro chega com um saco do Minipreço numa mão e um de pão na outra. Atrapalhado, não se dá ao trabalho de desligar o telefone e ouve o resto da mensagem:

Jorge (voz off) – …Devemos chegar por volta das 8 e meia. O avião aterra no Terminal 3. É só o tempo de saltar para o autocarro, deixar a mala em casa, meter-me no carro com a Alice… Ah, a propósito, obrigadinho pela mala. Aproveito para a devolver. Até já! E não façam cerimónia, está bem? É um jantar de amigos…

Pedro vai por os sacos na cozinha e regressa com uma bag in box de vinho corrente na mão. Despe a gabardina e tira um jarro do armário. Abre a box e enche o jarro. Chega Cristina.

Cristina – Olá! Tudo bem?

Pedro – O Jorge telefonou, estão um pouco atrasados.

Cristina – Ainda bem, porque nós também estamos…

Ela despe o casaco.

Cristina – A casa está gelada, não achas? Consegue estar mais frio que lá fora…

Pedro – Desliguei o aquecimento. É suporto fazermos economias, não é?

Cristina dá-se conta do que ele está a fazer.

Cristina (espantada) – O que é que tu estás a fazer?

Pedro – O que estás a ver, a por o vinho num jarro. É preciso deixá-lo respirar um pouco antes de o beber. Parece que é melhor.

Cristina – Não valia a pena investir num reserva especial… Se tivesse que escolher preferiria economizar no vinho e não no aquecimento…

Pedro – É um vinho corrente. Não me perguntes de que região é. Mas não é estrangeiro. Um euro e oitenta o litro, no Minipreço… não pode ser grande coisa… Promoção de Natal…

Cristina – Então porque é que o estás a por num jarro?

Pedro (irónico) – Foi o escanção do Minipreço que me aconselhou a fazer isso. Para que este precioso néctar solte todos os seus aromas de frutos vermelhos e baunilha. Com um ligeiro gosto de uva… (Sério de novo) O que achas? Preferes que ponhamos a bag in box na mesa?

Cristina – Tudo bem…

Pedro – E não acho que oxigenar esta zurrapa lhe faça mal. O vinho corrente é como a água da torneira. É melhor decantá-la antes de a beber. Para os gases tóxicos terem tempo de se evaporar e os metais pesados de se depositarem no fundo.

Cristina – Fizeste as compras?

Pedro – Comprei uma empada de alcachofras na loja de congelados ali da esquina e é só descongelá-la.

Cristina – Uma empada de alcachofras?

Pedro – Também estava em promoção… Com uma salada…

Cristina – Bom, vou preparar os aperitivos.

Cristina começa a tirar os copos do armário

Cristina – Passaste no Centro de Emprego?

Pedro – Sim…

Cristina – E então?

Pedro – Propuseram-me um estágio…

Cristina – Um estágio?

Pedro – Num restaurador

Cristina – Boa… Era o que tu querias, não era?

Pedro – Um restaurador de quadros…

Cristina – De quadros? Mas tu tens o curso de Hotelaria!

Pedro – Centro de Emprego, sabes como é… Devem ter feito confusão.

Cristina – Mas tu disseste-lhes que eras chefe de cozinha? E o que é que te responderam?

Pedro – Parece que agora temos que ser polivalentes…

Cristina – Mas que disparate. Antes de acabares o curso estavas num hotel e fazias parte de uma equipa de cozinheiros. O que é que vais poder enquadrar num restaurador de quadros?

Pedro – Quadros… Mais fica tranquila que aqui em casa serei sempre o teu cozinheiro.

Cristina – És mesmo pateta. E foste lá?

Pedro (virando-se para o quadro) – E aproveitei para avaliar a nossa tela…

Cristina – Ai sim… Esta bosta pela qual pagaste há dez anos uma fortuna ao teu amigo de Belas Artes…

Pedro – Foi mesmo depois da sua primeira tentativa de suicídio… Foi para o desenrascar. E pensei que o quadro se iria forçosamente valorizar…

Cristina – Se ao menos ele nos permitisse pagar o aquecimento… E então o teu restaurador avaliou esta obra-prima em quanto?

Pedro – Umas centenas de euros…

Cristina – Tu pagaste 1.500 por ele!

Pedro – Não, mas já viste como a cotação de Van Gogh explodiu logo após a sua morte?

Cristina – Resta-nos então esperar que o teu génio da pintura seja bem-sucedido na próxima vez que tentar suicidar-se, antes que nós morramos de frio… Sim, porque não podemos sonhar que o valor suba porque ele simplesmente não o tem…

Pedro – O problema da pintura moderna é esse mesmo…

Cristina – Espero que o Jorge nos pague os 1.000 euros que generosamente lhe emprestaste. Pelo menos dava para pagar o aluguer de um armazém para guardarmos os móveis enquanto esperamos pela casa da Câmara que o teu amigo vereador te prometeu… A propósito, falaste com ele?

Pedro – Com quem?

Cristina – Com o Jorge! Dos nossos 1.000 euros!

Pedro – Pergunto-me se será o momento apropriado… A vida também não está fácil para ele, sabes. A Portugal Telecom mudou o call center para a Faro. Já viste? Para Faro! Ele era Director de Recursos Humanos perto do Marquês… E não é a Alice, com o ordenado de professora a meio tempo…

Cristina – Pois sim, mas eu faço três meios tempos! E mesmo assim não dá para pagar as contas!

Pedro – Ok, falo com ele esta noite…

Toca o telefone.

Cristina – Devem ser eles… (Ela levanta o auscultador) Está lá… Olá Alice, tudo bem? Ok, não há problema, nós esperamos… Até já… (Ela desliga) Era a Alice…

Pedro – Sim, não sei porquê, mas assim que atendeste e disseste: Olá Alice, pensei logo que devia ser ela…

Cristina – O avião do Jorge está atrasado por isso ela vem sozinha de carro…

Pedro – E ele?

Cristina – Ela deixou-lhe uma mensagem no telemóvel para ele vir directamente para cá. Acho que vamos começar com os aperitivos sem ele…

Pedro – Mas que ideia a dele de apanhar o avião para vir de Faro…

Cristina – Sim… Sobretudo porque vai aterrar em Tires. Mas agora, com as low cost uma ida e volta a Faro pode custar menos do que um bilhete de metropolitano…

Pedro aproxima-se dela e dá-lhe um abraço.

Pedro – Vá lá, não penses nisso, vamos safar-nos.

Cristina – Claro… E enquanto estivermos os dois juntos não nos pode acontecer nada de grave, verdade?

Pedro – Prefiro beber um vinho corrente contigo do que degustar um Barca Velha com outra pessoa.

Cristina – Sinto que a nossa sorte vai mudar. Estamos quase no Natal. Além disso, hoje é sexta-feira 13, não é?

Pedro – Se calhar até ganhamos o euromilhões.

Cristina – Mas nós não jogámos…

Pedro – Enganas-te, eu fiz uma aposta quando fomos ver a tua Mãe a Évora… Escolhi os números com base na minha inscrição no Centro de Emprego…

Cristina – De repente fiquei muito mais tranquila…

Beijam-se.

Pedro – E a Alice? Estará a caminho?

Cristina – Há um quarto de hora que anda às voltas para encontrar um lugar…

Pedro – Pois… Aqui no bairro e a esta hora…

Cristina – Se eles tivessem um Smart como nós em vez do Mercedes 4×4, estacionavam com muito mais facilidade…

Pedro – Mas eles têm dois filhos. E o Smart só tem dois lugares.

Cristina – Podiam muito bem contentar-se com um Twingo ! Pensava que tinham problemas de dinheiro…

Pedro – O mais importante é que ela aprenda a estacionar num espaço apertado entre dois carros…

Cristina começa a tirar as garrafas. Tocam à porta.

Cristina – Vês como tu és mauzinho… Ela até conseguiu estacionar… Vais abrir?

Pedro vai abrir a porta.

Pedro – Olá Alice! O que é que te aconteceu? Estás branca como a cal da parede! Dir-se-ia que acabaste de ver um morto…

Alice chega com Pedro. Ela segura numa garrafa de champanhe e tem realmente um ar abatido.

Alice (chorando) – Não podias ter dito melhor…

Cristina aproxima-se, perturbada.

Cristina – Mas o que é que se passa, Alice?

Alice – Preparava-me para desligar o rádio e sair do carro. Estava na hora do noticiário. O avião onde o Jorge vinha despenhou-se no mar…

Pedro – No mar?

Cristina – Tens a certeza que foi o avião dele?

Pedro – Vinha de Faro…

Alice – Era um low cost, com uma escala em Casablanca. Eles referiram o número do voo e o nome da companhia. Não há qualquer dúvida. O avião desapareceu por cima do Estreito de Gibraltar…

Alice chora convulsivamente. Pedro e Cristina trocam um olhar destroçado.

Cristina – Ouve, talvez o encontrem…

Pedro – O Estreito de Gibraltar, não é assim tão grande…

Cristina – O piloto até pode ter conseguido pousar o avião no mar…

Pedro – Entre dois petroleiros…

Cristina – Isso já aconteceu…

Pedro – Não muitas vezes, mas já aconteceu…

Alice – Vocês acreditam mesmo nisso…?

Cristina – O que é que eles disseram na telefonia? Disseram que não havia sobreviventes?

Alice – Ainda não sabem…

Cristina – Estás a ver!

Pedro – E ainda por cima o avião é o meio de transporte mais seguro de todos! Segundo as estatísticas, quando apanhas um avião, a probabilidade de lá morrer é de um para um milhão. Quase o mesmo que ganhares o euromilhões, por isso estás a ver…

Cristina olha para ele consternada.

Alice (abatida) – E logo foi acontecer ao Jorge… Eu bem lhe tinha dito para não apanhar o avião numa sexta-feira 13…

Pedro – Bem, sabes, é que o Estreito de Gibraltar… Ao menos vão encontrar as caixas pretas…

Alice vai-se abaixo outra vez.

Alice – Oh, meu Deu, o que vai ser de mim sem ele? Com as duas crianças e o crédito da casa…

Pedro e Cristina trocam olhares impotentes, não sabendo muito bem o que fazer.

Alice (patética) – E lembrar-me que ainda vos devíamos 1.000 euros…

Cristina – O que é que estás para aí a dizer? Isso não tem importância!

Alice entrega a Pedro a garrafa de champanhe.

Alice – Toma, trouxe-vos uma garrafa de champanhe para vos agradecer. Se eu soubesse…

Pedro – Moet & Chandon… Não nos tratas nada mal…

Alice – É um pesadelo… Digam-me que não é verdade!

Pedro – Não será uma piada de mau gosto?

Cristina lança-lhe um olhar fulminante.

Cristina – Vá lá, vem, senta-te aqui. Vamos ligar a televisão para ter notícias frescas, concordas?

Cristina liga a televisão. Estão a dar anúncios.

Locutor (voz off) – Sabem a diferença entre estes dois caixões? O preço! Agência Barata, porque a vida já é demasiado cara…

Cristina muda precipitadamente de canal.

Locutor (voz off) – Se é do signo Leão, hoje não é decididamente o seu dia de sorte…

Alice – Eu sou Leão…

Locutor (voz off) – Evite as viagens…

Cristina – Mas não és tu quem ia no avião…

Locutor (voz off) – E se tiver mesmo que se deslocar, vá de comboio e não de avião…

Alice – O Jorge também é Leão…

Cristina – Vamos ligar a telefonia, mais vale…

Locutor (voz off) – …60 milhões de euros. É a quantia que levará o vencedor do euromilhões desta sexta-feira13. O sorteio já a seguir…

Cristina muda de estação.

Locutor (voz off) – Continuamos sem notícias do voo 32 da companhia Voe Connosco Para o Paraíso, proveniente de Faro com destino a Lisboa, via Casablanca e Madrid…

Alice – Estão a ver, é mesmo ele…

Locutor (voz off) – O piloto terá emitido um sinal de perigo mesmo antes do avião desaparecer dos radares. Vamos continuar a dar notícias assim que nos cheguem informações mais concretas…

Cristina apaga a telefonia.

Cristina – É preciso esperar… Para já não podemos fazer nada… Vou servir-te um copo para te subir o moral.

Pedro – Mas não vamos abrir o champanhe…

Alice (vendo a garrafa) – Vou beber um copo de vinho. Já que está aberto…

Cristina – Tens a certeza que não preferes outra coisa?

Alice – Não, garanto-te que está bem assim…

Pedro enche um copo e dá-o a Alice, que o bebe de um só trago, sob o olhar inquieto dos outros dois.

Alice (dirigindo-se a Pedro) – Estás a ver, com o que se está a passar já nem gosto tenho… Nem consigo apreciar um bom vinho…

Pedro – É…

Alice – Oh meu Deus, a minha mãe!

Cristina – Ela também estava no avião?

Alice – As crianças estão em casa dela. Se virem a televisão…

Alice agarra precipitadamente no telemóvel e liga rapidamente.

Alice – Está, Mãe? Sim, sei, estou ao corrente… Pelo menos as crianças não estão a ver televisão, espero… Já estão deitados? (Suspiro de alívio) Não, não me apetece falar disso agora… Volto a ligar… Ouve, guarda as tuas condolências para depois… Ele ainda não está morto, ok? Sim, é provável, mas ainda não há certezas, portanto, se me dás licença… De qualquer maneira, tu sempre o detestaste… Quantas vezes me repetiste que não era homem para mim? Que eu poderia encontrar melhor… E sabes que mais… merda!

Alice desliga, furiosa. Pedro e Cristina olham para ela com um ar um pouco incomodado e condoído.

Alice – Ela nunca conseguiu suportar o Jorge… Tenho a certeza que lá bem no fundo ela está contente…

Cristina – Vá lá, não digas isso…

Alice – No dia do nosso casamento fez de conta que o meu pai estava doente para não assistir à cerimónia…

Pedro – Mas o teu pai estava mesmo doente, não estava? Ele morreu alguns meses depois…

Alice – Sim, no dia em que nasceu o Martim… De propósito para me chatear…

Cristina – Queres que te vá buscar um calmante?

Alice – Desculpem estar a chatear-vos com tudo isto… Não quero estragar-vos a noite. (Ela levanta-se) É melhor ir-me embora…

Cristina – Por amor de Deus, Alice! Somos ou não somos amigos? Para que serve ter amigos se não podemos contar com eles em momentos como este?

Alice (sentando-se de novo) – Eu sabia que podia contar com vocês… E devo confessar que não tenho muita vontade de ficar sozinha em casa, à frente da árvore de Natal, colada à telefonia à espera do veredicto…

Pedro – Se calhar devíamos ligar outra vez a telefonia para saber se há novidades…

Alice – Nem sei se me apetece mesmo saber… (Uma pausa) Vá lá, liga-a…

Cristina – Ok.

Cristina volta a ligar a telefonia.

Locutor (voz off) – …Os aviões que sobrevoam a zona localizaram uma grande mancha de hidrocarboneto à superfície da água. Mas ainda não se sabe se provem do avião das Linhas Aéreas Voe Connosco para o Paraíso que, relembro, se despenhou há cerca de uma hora no Estreito de Gibraltar. Esperamos ligação com nosso enviado especial que se encontra a bordo de um dos helicópteros de salvamento… Entretanto, enquanto não o temos em linha, voltamos a lembrar o resultado do euromilhões…

Alice – Uma descarga de querosene… Isso quer dizer que o avião se desfez… Como é que pode haver sobreviventes…?

Pedro e Cristina não sabem o que dizer para lhe levantar o moral.

Locutor (voz off) – …Os números sorteados foram: 1, 7, 32, 33, 40 e as estrelas 4 e 5…

Pedro parece ficar petrificado.

Cristina – Se o piloto tiver conseguido pousar o avião na água, alguns passageiros podem ter saído antes do aparelho afundar…

Locutor (voz off) – O feliz vencedor ganhará a bonita quantia de 60 milhões de euros. Mais um excêntrico…

Cristina desliga a telefonia.

Pedro – É…

Alice – O quê?

Pedro – Não, não, nada…

Cristina – Tu já andaste de avião. Lembra-te. O que é que as hospedeiras dizem antes da descolagem? As máscaras de oxigénio que caiem automaticamente, os coletes de salvação sob os assentos, as saídas de emergência a cada extremidade do aparelho, rampas insufláveis em cada porta, tudo isso… Não se pode dizer que não haja procedimentos para as situações de perigo… Está tudo previsto…

Pedro tira discretamente da sua algibeira o cartão do Centro de Emprego e observa-o.

Alice – As hospedeiras de ar… Dizes bem… Lá olhar para elas, o Jorge não se esquece… Mas ouvir o que elas dizem… Sabes como os homens são…

Pedro – Oh, merda!

Alice – Vejamos, Pedro, tu por exemplo. Tu sabes o que elas dizem?

Pedro é apanhado de surpresa.

Pedro – O quê? Quem?

Alice (para Cristina) – Estás a ver… O que é que eu te dizia…

Cristina (para Pedro) – As hospedeiras de ar, o que é que elas dizem antes do avião descolar? No caso de… despressurização do aparelho.

Pedro (enervando-se) – O… Os paraquedas debaixo dos assentos, os tubos que caem do tecto, as instruções no guarda-luvas, tudo isso?

Cristina olha para Pedro, mostrando reprovação.

Cristina (para Alice) – E ninguém te telefonou?

Alice – Jorge já está com certeza no fundo do Estreito de Gibraltar. Como é que queres que ele me telefone?

Completamente ausente, Pedro volta a ligar a televisão.

Locutor (off) – Relembro que os números do euromilhões de hoje foram: 1, 7, 32, 33, 40 e as estrelas 4 e 5. Quem acertou ganhou 60 milhões de euros… Há um só totalista… em Portugal.

Pedro volta a consultar o seu cartão do Centro de Emprego

Pedro – Oh, bolas…

Cristina apaga a televisão.

Cristina – Não, eu queria dizer… Há seguramente um gabinete de apoio psicológico… Para avisar os parentes… Para os apoiar… Tudo isso…

Pedro (para Cristina) – Posso dar-te uma palavrinha?

Cristina – O quê?

Pedro – Em particular…

O telemóvel de Alice começa a tocar.

Cristina – Vês, devem ser eles…

Alice – Mas eu nem sei se quero saber…

O telefone continua a tocar.

Cristina – Queres que atenda?

Alice – Sim, por favor…

Cristina atende o telefonema.

Cristina – Sim… Não… Ah, de acordo… Ah, bom… Não, não… Sim, sim, estamos muito contentes. Ok, obrigada…

Cristina desliga o telefone.

Alice – Então?

Cristina (num estado de quase inconsciência) – Era o teu ginecologista… sobre a análise de sangue que fizeste…

Alice – E então?

Cristina – Então? Estás mesmo grávida…

Alice (desfeita) – Oh, meu Deus…

Cristina – Vai outro copo de vinho?

Alice – Sim, obrigada…

Cristina volta a encher o copo de Alice.

Pedro (para Cristina) – Ouve… tenho mesmo de te dizer uma coisa…

Cristina (para Pedro) – Achas mesmo que é oportuno?

Pedro – Garanto-te que é muito importante…

O olhar de Alice detém-se no quadro.

Alice – Este quadro é mesmo bizarro, não acham…?

Cristina – Sim… Talvez um pouco, sim…

Cristina dá-lhe o copo de vinho.

Alice – O tipo que pintou isto devia estar cá com uma depressão (Dirigindo-se a Pedro) É um amigo teu?

Pedro – Sim, mais ou menos… Creio que é húngaro.

Alice – Ai sim, vê-se. (Para Pedro) Ele suicidou-se?

Cristina – Ainda não, infelizmente…

Alice esvazia o copo de vinho de uma só vez.

Alice (para Cristina) – Já agora, dá-me outro…

Cristina – Se calhar não devias beber demasiado. No teu estado…

Pedro (não sabendo o que dizer) – Ao que parece vocês agora esperam um feliz acontecimento, não é?

Cristina fulmina-o com o olhar.

Pedro (a Cristina) – Tenho mesmo que falar contigo…

Alice – Tens razão, já estou meia tonta. Vou à varanda apanhar um pouco de ar fresco.

Cristina – Queres que vá contigo?

Alice – Não, obrigada. Preciso de ficar um bocado sózinha…

Cristina – Ok.

Alice sai para a varanda. Pedro, impaciente, espera que ela desapareça.

Pedro – Nem podes acreditar no que que se passa…!

Cristina (distraída) – Grávida… Já viste?

Pedro – Tu estás grávida? Mas isso é maravilhoso! Há um quarto de hora essa notícia teria sido uma verdadeira catástrofe. Mas agora não. E sabes porquê?

Cristina – Mas não sou eu que estou grávida!

Pedro – Sim, é verdade. Lamento…

Cristina – Vocês, homens, não ouvem mesmo nada do que nós, mulheres, dizemos…

Pedro – Então quem é que está grávida?

Cristina – A Alice! Já viste? Num só dia morre-lhe o marido num desastre de avião e fica a saber que está à espera de um filho dele…

Pedro – Como é que sabes que o filho é dele?

Cristina (boquiaberta) – Não sei… Intuição feminina…? Como os dois primeiros são dele e o Jorge é o marido dela, foi a primeira ideia que me veio à cabeça. É uma estupidez, não é?

Pedro – Bem, de qualquer maneira essa não é a questão… Sabes o que aconteceu?

Cristina – O quê?

Pedro – Ganhámos!

Cristina (olhando par a varanda) – Oh, meu Deus!

Pedro – É um choque, não é?

Cristina – Alice! Ela está a tentar saltar por cima do parapeito!

Pedro volta-se e percebe o que está a acontecer.

Pedro – Que chatice! Esta fulana vai-nos moer a cabeça… Que salte e não se fala mais nisso. Estamos no primeiro andar. Não se vai magoar muito…

Sem o ouvir, Cristina aproxima-se da janela.

Cristina – Por favor, Alice! Não faças isso! Pensa nos teus filhos! Bolas, estamos no Natal…

Alice – Promete-me que se eu saltar tomas conta deles. Não os deixarás ir para a Casa Pia, está bem?

Cristina – Sim…

Pedro – Não nos faltava mais nada…

Cristina – Queria dizer não, não saltes! (Para Pedro) Diz qualquer coisa, tu!

Pedro – Para as crianças tens a tua mãe, não?

Alice – Prefiro mesmo que vão para a Casa Pia.

Cristina – Se calhar devíamos chamar os bombeiros…

Pedro – Deixa estar, não há qualquer fogo. Eu vou fazê-la descer do parapeito…

Alice – Se se aproximarem, eu salto.

Cristina – O que é que fazemos?

Pedro – Espera, já volto…

Cristina – Não me deixes sozinha!

Pedro desaparece no corredor.

Alice (patética) – Eu também me vou despenhar lá em baixo. Como um avião sem uma asa. Vou ter com o meu Jorge…

Cristina – Acreditas mesmo que ele quereria isso? Com certeza que preferia que não te matasse para te ocupares dos vossos filhos. E depois imagina que ele não esteja mesmo morto. Toca à campainha e vê-te esborrachada lá em baixo.

Não é a campainha da porta que se ouve mas sim a do telemóvel de Alice.

Cristina – Estás a ver? Se calhar até é ele… Vá, atende…

Alice (hesitante) – Estou…?

Cristina (na direcção por onde Pedro saiu) – Espero que não seja outra vez a ginecologista. Para lhe anunciar que afinal são gémeos…

Alice – Sim, estou a ouvir… Têm a certeza? De acordo. Não, não, não se preocupem. Ok, obrigada, fico ao lado do telefone…

Cristina – O que é que se passa?

Alice – Eram eles… O gabinete de apoio psicológico…

Cristina – E então?

Alice – Encontraram sobreviventes… Jorge poderá ser um deles…

Cristina – Mas isso é genial! Estás a ver? Imagina que tinhas saltado…

Pedro regressa.

Pedro – Sim, teria, pelo menos, feito uma entorse do tornozelo…

Cristina – Vá lá, desce daí… (Para Pedro) Acabaram de telefonar do gabinete de apoio. Encontraram sobreviventes…

Pedro – Eu sei…

Cristina – Mas tu ouviste?

Pedro – Fui eu que fiz a chamada.

Cristina – O quê?

Pedro – Era preciso encontrar uma maneira de a tirar dali…

Alice volta para a sala.

Alice – Tens razão… Tenho que acreditar. Sinto que o Jorge ainda está vivo. Eu sei…

Cristina lança um olhar fulminante a Pedro.

Cristina – Mesmo assim, não te entusiasmes muito… Como é que eles sabem que o Jorge pode ser um dos sobreviventes?

Alice – Localizaram um tipo agarrado a uma mala que gritava: Alice, Alice…

Cristina fuzila novamente o marido com o olhar.

Alice – Como é que eles sabem o meu nome?

Cristina – Pois, também me questiono sobre isso…

Pedro – Bom, vou fechar a janela, ok? E tu não a deixes aproximar-se dela.

Cristina – E o que é que lhe vamos dizer se o verdadeiro gabinete de apoio ligar?

Pedro – Há com certeza vários passageiros a bordo cujas mulheres se chamam Alice. Sem falar nas amantes…

Alice – Esqueci-me completamente de lhes pedir o número de telefone… Queria perguntar-lhes se posso ir até ao local para participar nas buscas. Vou ver nas “chamadas atendidas”…

Cristina (com um tom categórico) – Se fosse a ti, não fazia isso…

Ar espantado de Alice.

Cristina – Eles devem estar super atarefados. Voltam a ligar-te de certeza assim que tiverem mais notícias…

Pedro – Preciso mesmo de falar contigo.

Cristina – Diz…

Pedro – Em privado…

Cristina – Não a podemos deixar sozinha. Imagina que a polícia liga para lhe anunciar a morte do Jorge e que ela volta a querer saltar da varanda?

Pedro – Então vamos nós para a varanda!

Cristina – Não acredito, Pedro… Decepcionas-me muito… Julgava-te mais amigo dos teus amigos. Estamos a falar do Jorge! Teu colega de liceu! E da Alice, a minha melhor amiga! Eles foram as nossas testemunhas de casamento. Podemos muito bem sacrificar uma noite para a apoiar na desgraça que lhe está a acontecer!

Pedro – Ganhámos o euromilhões!

Cristina – Quanto?

Pedro – 60 milhões.

Alice – Acho que vou beber mais um copo de vinho. Com todas estas emoções…

Cristina (secamente) – Agora já sabes onde está o jarro! Ou preferes que eu traga a bag in box e uma palhinha?

Alice acusa o toque.

Alice – Bem, creio que os vou deixar… Já vos chateei quanto baste.

Cristina retracta-se.

Cristina – Desculpa. Não era isso que eu queria dizer. (Volta a servir-lhe um copo de vinho) Mas estamos todos nervosos, não? Precisas de comer alguma coisa para não ficares mal disposta… (Para Pedro, em particular, enquanto Alice esvazia o copo) Acho que é o momento certo para lhe impingirmos a empada de alcachofras…

Pedro vai à cozinha.

Cristina – Nós também éramos muito chegados a ele. Por isso é evidente que estamos abalados com a morte do Jorge. Quero dizer, com a perspectiva do seu desaparecimento… Mas também temos que saber ultrapassar isso, não achas? Só se vive uma vez.

Pedro regressa com uma fatia de empada que entrega à Cristina.

Cristina (dando o prato com a empada à Alice) – É preciso saber aproveitar as coisas boas da vida…

Alice come uma garfada.

Alice – Não é nada mau… É o quê?

Cristina (hipócrita) – Foi o Pedro que cozinhou. É de quê…?

Alice (com a boca cheia) – Desde que não seja de alcachofras. É a única coisa a que sou alérgica. Nem sei a que é que sabe. A única vez que comi foi na casa da minha avó, no Alentejo. Acabei nas urgências…

Os outros dois trocam olhares de consternação.

Alice – A vantagem das alcachofras é que não corremos o risco de as comer sem darmos por isso…

Cristina arranca o prato da mão da Alice.

Cristina – Se calhar é melhor passar à sobremesa…?

Alice parece não estar em si.

Alice – Acho que vou vomitar… Estás a ver, normalmente isto não me acontece. Sobretudo com coisas tão boas como esta… Deve ser do stress…

Ela afasta-se para ir à casa de banho. Sem a Alice na sala, Cristina explode de excitação.

Cristina – Mas tu tens a certeza?

Pedro (mostrando o cartão do centro de emprego) – Escolhi os números a partir do de inscrição no Centro de Emprego! Saíram! Acabaram de os anunciar na telefonia! Não ouviste? 60 milhões, já viste o que isto é? Podemos comprar um Airbus com esse dinheiro! Se calhar em segunda mão. Mas em bom estado…

Cristina – Mas isso é de doidos!

Pedro enche dois copos de vinho e dá um a Cristina para fazerem uma saúde.

Pedro – Vá, bebe um copo deste vinho corrente para te lembrares bem ao que sabe. Porque tão cedo o voltarás a beber…

Fazem uma saúde.

Cristina – É de loucura… Espero que não seja uma chalaça… não é, pois não?

Pedro – A mim também me custa a acreditar. Mas verifiquei três vezes os números. Juro-te, somos nós os felizes contemplados! Ganhámos! Ganhámos o Jackpot desta sexta feira 13!

Alice regressa.

Cristina – Nem vais acreditar no que acabamos de saber!

Alice – Eles voltaram a telefonar? É mesmo ele? Está vivo?

Pedro (embaraçado) – Hum, não… Ainda não têm a certeza…

Cristina – Mas eles localizaram uma mala que se parece muito com a dele. Uma mala Louis Vuitton. Flutuando à superfície…

Alice – Então qual é a boa notícia?

Cristina – Ah… Isso… (Histérica) Vamos poder recuperar a mala!

Pedro, com um gesto, tenta acalmar Cristina.

Pedro – Desculpa-a… São os nervos…

Alice – Vocês têm razão. Esta espera é insuportável… Mesmo que ele ainda esteja vivo, só de imaginar o Jorge sozinho, agarrado à mala, no meio do Estreito de Gibraltar, em pleno inverno… Enquanto nós estamos tranquilamente instalados aqui no quentinho… Tenho o sangue a gelar-se nas veias… Mas aqui não está propriamente calor, pois não? Ou sou eu…

Pedro (com um ar entendido) – Agora vamos poder voltar a ligar o aquecimento, não é Cristina? Vou ligá-lo no máximo…

Ele sai para ligar o aquecimento.

Alice – Quanto tempo é que achas que se pode aguentar na água gelada da Mancha, em pleno mês de Dezembro?

Cristina – Depende… Ele era mais a atirar para o friorento, não?

Alice – Oh, meu Deus…

Pedro regressa.

Pedro – Pus o termóstato a 25… (Com um piscar de olhos a Cristina) Assim, se tivermos que partir de repente para os trópicos, evitaremos o choque térmico…

Alice – Vocês vão de férias…?

Pedro – Não, mas… Porque não?

Alice – Se fosse a vocês evitava o avião…

Cristina – Sim, é capaz de ser mais prudente. A lei das séries… E um bom SPA num resort 5 estrelas nas Maldivas… Só para entrarmos com o pé direito numa vida nova…

Alice – Têm razão em querer aproveitar… Já viram o que é o destino? Jantamos tranquilamente com os nossos melhores amigos e, sem qualquer pré-aviso, ficamos viúvos…

Cristina – Sim… Ou multimilionários em euros!

Alice – Acreditas que nós não tínhamos hipótese de pagar um seguro de vida? É bizarro, porque ultimamente ele falava muito nisso… Para, ao menos, poder pagar os estudos dos miúdos no caso de… Ele devia estar a prever qualquer coisa… um mau pressentimento…

Pedro – Sim. Nós, podes acreditar, não demos por ela chegar. Caiu-nos em cima, assim sem mais nem menos…

Cristina (para Alice) – Vá lá… nem sempre acontece o pior…

Pedro – Mas é cá um choque… É preciso gerir…

Alice – Vocês têm algum?

Cristina – Algum quê?

Alice – Algum seguro de vida! Um seguro em caso de morte…

Pedro – Temos melhor do que isso, acredita.

Alice – Juro-te que se ele se safar desta vou encarar a vida de uma forma diferente…

Cristina – E nós também, garanto-te.

Alice – Todos os pequenos sacrifícios que nos impomos todos os dias dizendo que aproveitaremos mais tarde… Podes crer… Faríamos bem melhor se vivêssemos um dia de cada vez sem pensar no amanhã…

Pedro – Tens razão. Eu, amanhã, deixo de trabalhar.

Alice – Pensava que estavas no desemprego…

Pedro – Sim, vou deixar de procurar um trabalho.

Alice – Sim, mas não podemos deixar de trabalhar. Temos que sustentar a família. E pôr algum de lado. Porque não será com as reformas que teremos… Oh, meu Deus… Sinto que o Jorge não vai custar muito à Caixa Nacional de Pensões…

Cristina – Vá lá, não digas isso…

Alice – Como é que me vou aguentar com os dois miúdos…

Cristina – Podes contar connosco… Não é, Pedro…? Se quiseres podemos ficar com um para te aliviar um pouco!

Pedro (não muito entusiasmado) – Sim, porque não…

Alice – É simpático da vossa parte, mas… Mas nós já vos devemos 1.000 euros…

Cristina – Ora bem, sabes uma coisa? Vamos dar-vos esses 1.000 euros. Já não nos fazem qualquer diferença, não é Pedro?

Pedro – Hum, hum, não… Claro… Podem esquecer essa dívida…

Alice (comovida) – É mesmo um apoio, para mim, saber que posso contar com amigos como vocês… Eu sei o que são 1.000 euros para vocês… Sobretudo neste momento. Com o Pedro desempregado. Se pedisse ao meu banco que mos emprestasse não sei se o fariam. Com tanta massa que fazem a especular com o nosso dinheiro… E vocês… que nem sequer podem ligar o aquecimento em pleno mês de Dezembro… Excepto quando têm visitas… Por falar nisso, agora está demasiado calor, não acham? Não quero que a vossa conta da EDP aumente por minha causa…

Pedro – Vou baixar um bocadinho…

Pedro sai de novo por alguns segundos.

Alice – Como é que vou dar esta notícia às crianças…

Cristina – Agora eles estão a dormir, não?

Alice – Mas hão-de acordar um dia…

Cristina – Ouve lá, se calhar eu não devia dizer-te isto, mas não consigo acreditar que ele esteja morto. Não esta noite…

Alice – Porque é que dizes não esta noite?

Cristina – Sei lá… como o que te disse há pouco a propósito do teu pai. Que morreu justamente no dia em que nasceu o teu filho. De propósito para te chatear.

Alice – Achas que o Jorge decidiu deixar-se morrer na queda dum avião justamente hoje para nos estragar a noite?

Pedro regressa.

Cristina (preferindo mudar de assunto) – E se ligássemos de novo a televisão, para ter a confirmação… É a hora de voltarem a dar o sorteio do euromilhões… Quero dizer, logo depois são as informações…

O telemóvel de Alice toca, interrompendo o movimento de Cristina em direcção à televisão. Alice, estática, hesita, mas acaba por atender o telemóvel.

Alice – Estou…? Sim, a própria… (Para Cristina e Pedro) São eles! Do gabinete de apoio… Sim…? Sim, estou a ouvir…

Os outros dois estão com um ar super chateado.

Alice – Mas vocês tinham dito que … De acordo… Ok… Obrigada…

Ela desliga.

Alice – Localizaram cinco sobreviventes agarrados aos destroços do avião… Até talvez um sexto…

Pedro – Uma das estrelas.

Alice – Estão a tentar retirá-los com um helicóptero mas está muito um tempo no Estreito de Gibraltar… E ainda não os identificaram.

Cristina – Eles vão ligar-te logo que façam o sorteio… Quero dizer, o salvamento!

Alice – Não, vocês têm razão… É como a lotaria… Esta espera é um inferno. Tenho a sensação de ter jogado no euromilhões e estar à espera de saber se acertei nos números…

Cristina – Ora bem… Foi a sensação que tive quando casei com o Pedro… Mas o que é que estou para aqui a dizer… Quantos estavam no avião?

Alice – Não faço a menor ideia… Era um avião pequeno… Faro-Lisboa… Mesmo com as escalas…

Pedro – Digamos que estava uma centena. Se há cinco sobreviventes… Isso dá uma hipótese em vinte. Sempre é melhor do que no euromilhões…

Alice – Nunca tive sorte ao jogo…

Cristina – Sabes o que se diz: cem por cento dos que ganham tentaram a sua sorte…

Alice – Oh, meu Deus… Felizmente que vocês estão aqui… senão…

Cristina – Não queres ir descansar um bocadinho no nosso quarto?

Alice – E se eles voltam a ligar…?

Pedro – Pode demorar horas, sabes… Com a tempestade… Um salvamento no mar, como este, é muito delicado… Eles ainda nem sequer sabem se os podem retirar vivos. Com a água a dois ou três graus, já pensaste…

Alice – De qualquer maneira nunca conseguiria dormir.

Cristina – Posso dar-te um sonífero, se quiseres.

Alice – Não creio que isso chegue. No estado em que estou…

Cristina – Podes tomar dois ou três. São muito fraquinhos…

Alice – São muito gentis, mas eu não vou ocupar o vosso quarto, ainda por cima…

Cristina – Sabes, nós também não vamos conseguir pregar olho, por isso…

Alice – Obrigada… Francamente, nunca pensei que tudo isto vos iria transtornar tanto assim… (Olhando para o telemóvel) Merda, pu-lo no silêncio. Um reflexo… Vou ver se me deixaram alguma mensagem…

Ela afasta-se um pouco para consultar a sua caixa de mensagens.

Pedro (para Cristina) – Nunca mais nos vamos ver livres dela…

Alice – Não, não mandaram nenhuma mensagem…

Cristina – Mas… Ainda nem passaram cinco minutos desde que te telefonaram…

Pedro – E depois, aqui entre nós, tu sabes… Uma hipótese em vinte… Se calhar é melhor que te prepares para o pior, não?

Alice – Mas há bocadinho disseste-me que…

Cristina – Não queríamos dar-te falsas esperanças… Não foi Pedro?

Pedro – Temos que reconhecer que hoje não é o dia de sorte do Jorge…

Cristina – O que o Pedro quer dizer, com as suas palavras, é que se o Jorge está mesmo morto, tu vais sabê-lo a seu tempo… Não seria mesmo melhor que te fosses deitar? Queres que te chame um táxi?

Alice – Eu vim de carro, no 4×4.

Cristina – Ah, é verdade…

Alice – E francamente não sei se estou em estado de conduzir.

Troca de olhares desesperados entre Pedro e Cristina.

Alice – Mas tens razão, vou descansar um pouco no vosso quarto. Não vou dormir, mas… Acho que preciso de ficar sózinha…

Pedro – Sim, nós também… Quero dizer, sim, com certeza, compreendemos-te. Não é Cristina?

Alice – Então vou…

Cristina – Ainda bem…

Alice sai sob os olhares de circunstância de Pedro e Cristina que, assim que ela desaparece, soltam gargalhadas de alegria.

Pedro – Bolas! 60 milhões!

Alice regressa. Pedro e Cristina ficam estáticos.

Alice – Esqueci-me do telemóvel…

Alice volta a sair.

Cristina – Enquanto não vir o talão da aposta e verificar os números não consigo acreditar. Mostra-mo lá…

Pedro – Vou buscá-lo… (Dá um passo para ir) Bolas, está no quarto… Com um pouco de sorte ela vai adormecer e deixar-nos em paz. Agora não é boa ideia ir acordá-la… E se deitássemos abaixo a garrafa de Moet & Chandon enquanto esperamos? Para festejar…

Cristina – No quarto? Não vi nada. Pelo menos não perdeste o talão, espero… Imagina que caiu da mesa-de-cabeceira e que acabou no aspirador. Mudei o saco ontem e deitei fora o saco do lixo esta manhã.

Pedro – Não te preocupes… Está muito bem arrumado. (Preparando-se para abrir a garrafa de champanhe) Vou tentar tirar a rolha sem fazer muito barulho… para não a acordar.

Cristina – Bem arrumado…? Onde…?

Pedro – Na minha mala. Na parte de cima do armário… Na bolsa interior… Nem me lembrei de o tirar quando voltámos de Évora… Já nem me lembrava que tinha jogado… Achas normal…?

Cristina – Queres dizer na tua mala Louis Vuitton?

Pedro – Sim, porquê? A minha mala… Não me digas que também a aspiraste… (Dando-se conta do embaraço de Cristina) O que é que se passa?

Cristina – O Jorge não tinha mala para ir a Faro… Então a Alice perguntou-me se lhe podia emprestar uma…

Pedro deixa escapar a rolha que salta fazendo imenso barulho.

Pedro – Tu emprestaste-lhe a minha mala? Deixaste-o apanhar aquele avião podre de uma companhia low cost com a minha mala Louis Vuitton?

Cristina – Bem, no que diz respeito à mala Louis Vuitton, relembro-te que era falsa… Uma cópia que comprámos em Ceuta quando vínhamos do Clube Med de Yasmina?

Pedro – Com o nosso cheque de 60 milhões dentro! Tínhamos o suficiente para comprar a fábrica que produz as verdadeiras…

Alice regressa.

Alice – Ouvi algo que me pareceu uma detonação… Que me acordou… (Vendo a cara desfeita dos dois outros) Vocês estão cá com uma cara… Têm notícias, é isso? Não são boas e vocês não têm coragem de mas dar?

Pedro – Sim, pode dizer-se dessa maneira…

Alice – Oh, meu Deus…!

Cristina – Não, espera… Não se trata do Jorge…

Pedro – Só um pouco…

Cristina – Pedro não sabia que eu te tinha emprestado a mala dele… Então, claro, isso chocou-o… Um choque emocional, estás a ver… Imaginar o seu melhor amigo agarrado à mala dele no meio do Estreito de Gibraltar… Com os tubarões a andarem à volta dele…

Alice – Há tubarões no Estreito de Gibraltar?

Cristina – Não sei, imagino…

Alice – Oh, meu Deus, é verdade, a mala… Já vos devíamos 1.000 euros que não estávamos a conseguir pagar e agora vocês nunca mais vão ver a vossa mala Louis Vuitton. Felizmente que era falsa…

Cristina – Ainda há uma esperança, não? (Olhando para Pedro) Do Jorge ser encontrado… com a mala.

Pedro – Acreditas nisso?

Cristina – Uma mala flutua muito melhor que um cadáver! Lembra-te das imagens que se veem na televisão depois deste tipo de acidentes com aviões. O que é que flutua? As malas!

Pedro – Sim, se não forem muito pesadas…

Cristina (a Alice) – A mala do Jorge estava muito cheia?

Alice – Ele só passou uma noite no hotel Ibis de Faro, por isso não levou muita coisa…

Os outros dois recuperam um pouco de esperança.

Alice – Não contando com todos os catálogos de vendas, claro. O papel pesa toneladas. Eu nem consegui pegar na mala para a por no porta-bagagens do carro quando o fui levar ao aeroporto. Felizmente a mala tinha rodas. As imitações não são assim tão mal feitas. Vocês têm razão. Não vale a pena gastar uma fortuna para comprar uma verdadeira… Mas porque é que vocês querem saber o que havia nessa mala?

Cristina – Pois… Se ela flutuar o Jorge pôde agarrar-se a ela. Como a uma bóia…

Alice – Sim, não, sei lá… Mais valia agarrar-se a uma bigorna… E ainda por cima as bagagens vão na parte de baixo da fuselagem, não? Mergulham a pique com a carcaça do aparelho…

Pedro lança um olhar mortífero a Cristina.

Cristina – Às vezes, quando conseguem localizar os destroços no fundo do mar, trazem-nos à superfície. Para encontrar as caixas negras, determinar as causas do acidente, recuperar as malas – quero dizer, os corpos – para que as famílias possam fazer os seus lutos…

Pedro – Achas que sim?

Cristina – Claro! Não sei porquê mas ainda não perdi a esperança. Não é Alice?

Alice – Sim, claro…

Cristina – Hoje é sexta-feira 13, não é?

Alice – Nunca percebi se isso traz sorte ou azar…

Cristina – Au acho que… Ambos, sorte e azar!

Pedro (para Alice) – Mas tens a certeza absoluta que ele partiu com ela?

Alice – Com a Companhia Voe Connosco Para o Paraíso? Sim, infelizmente… Fui mesmo eu que comprei o bilhete na internet…

Pedro (histérico) – E com a minha mala, bolas! Com o raio da mala!

Alice está um pouco confusa. Cristina faz sinal a Pedro para se acalmar.

Alice – Bem, acho que vou mesmo deixá-los… Vou dormir a casa da minha mãe. Ao menos estarei ao lado dos meus filhos quando acordarem. E se tiver notícias, boas ou más, digo-vos. Prometo.

Pedro – 60 milhões… 60 milhões, bolas! Digam-me que é um pesadelo…

Cristina (para Alice) – Sim, talvez seja mais razoável…

Alice – Pronto, vou deixá-los dormir…

Pedro – Porque tu acreditas mesmo que nós vamos poder dormir? Agora?

Alice – Telefono-lhes amanhã de manhã… Vão saber tudo bem cedo… Eu também. Tens razão, Cristina. Isto pode durar horas. Vou tomar um sonífero logo que chegar a casa da minha mãe…

Pedro – Ah, não! Nós queremos mesmo saber! Já! Não é Cristina? Não vamos ficar à espera feitos parvos…

Alice – Para te dizer francamente, comove-me que estejas tão transtornado. Sei que o Jorge era um amigo… mas nunca pensei que o seu desaparecimento te afectasse tanto.

Pedro – Vou ligar de novo a televisão…

Locutor (voz off) – Os números vencedores são…

Pedro – Chega, já percebemos…

Alice (inquieta, para Cristina) Não achas que também lhe devias dar um calmante?

Pedro muda de canal.

Locutor (voz off) – Agora já é certo: não há qualquer sobrevivente do acidente com o avião das Linhas Aéreas Voe Connosco Para o Paraíso. As pessoas que foram avistadas agarradas a destroços do avião, que se pensou serem sobreviventes, são indivíduos que tentavam chegar ilegalmente a Espanha, a nado. Claro que foram imediatamente postos num charter que os vai levar de volta ao país de origem. Um charter da mesma companhia. Desejamos que tenham uma boa viagem… (Sem transição) Ainda não se sabe o nome do vencedor do euromilhões, do jackpot de…

Pedro apaga a televisão, completamente abalado.

Pedro – Oh, que merda… Nem um sobrevivente…

O telemóvel da Alice toca. Ela olha para ver o número.

Alice – Se for a minha mãe não respondo…

Pedro – A minha mala Louis Vuitton…

Alice – É ele…

Cristina – Ele, quem?

Alice – O Jorge… É o número dele que está a chamar…

Cristina – Não…

Pedro (admirado) – Qual é o operador que tu tens?

Cristina – Vá lá, atende!

Alice, muito pálida, atende.

Alice – Estou…

Pedro e Cristina estão suspensos nas palavras dela.

Alice – Jorge? Mas estás a ligar-me de onde? Espera, estou a ouvir-te muito mal… Como se me estivesses a ligar de muito longe…

Pedro – Estou espantado… Eles disseram que não havia sobreviventes…

Alice – E tu, estás-me a ouvir…? Jorge…? Estou…? Está lá…? (Ela volta-se para os outros dois com um ar dramático) Cortaram a ligação…

Silêncio de morte.

Cristina – Mas tens a certeza de que era mesmo ele?

Alice – Não sei… A ligação estava muito má…

Pedro – A quem o dizes…

Alice – De qualquer maneira, a chamada era mesmo do telemóvel dele. Conheço bem o número…

Pedro – Os números certos…

Cristina – Se calhar conseguiu ejectar-se do avião… e conseguiu agarrar-se a qualquer coisa…

Pedro – À mala…

Cristina – E ele ligou-te com o que restava da bateria.

Alice – Oh, meu Deus… Mas eles tinham dito que não havia sobreviventes… Já começava a aceitar…

Cristina – Um milagre pode sempre acontecer.

Pedro – Um milagre… Era preciso que o tivessem resgatado antes de ser devorado pelos tubarões…

Alice – Vocês conseguem imaginar o Jorge, no meio daquela tempestade, completamente sozinho, no meio do Atlântico…

Pedro – Do Estreito de Gibraltar…

Cristina – O estreito não é assim tão grande…

Alice – De noite, agarrado à tua mala, perdido naquele oceano…

Pedro – O Estreito de Gibraltar, já te disse!

Alice – Ele pode ter andado à deriva… O que é que eles vão fazer para o encontrar…?

Pedro – É como procurar uma mala num monte de feno…

Alice – Vou tentar ligar-lhe… Mesmo que tenha pouca bateria, talvez chegue para descrever o local onde está. Isso facilitaria as buscas…

Cristina – E se ele está mesmo perdido no meio do Pacífico…

Pedro – O Estreito de Gibraltar, bolas!

Alice liga para Jorge e espera ansiosamente.

 

 

Alice – Está a tocar… Oh, meu Deus, foi para as mensagens. Tenho a sensação de ouvir uma voz além-túmulo… Estou, Jorge? Se ouvires esta mensagem, quero que saibas que te amo muito. E os miúdos também. Por favor, Jorge, tenta aguentar. Por mim. Pelas crianças. Por ti também, claro. Enquanto eles procuram encontrar-te. Um enorme beijo, meu querido…

Pedro e Cristina comovidos, olham um para o outro.

Alice – Queria confessar-te uma última coisa, Jorge. Para aliviar a minha consciência. Porque, se calhar, já não vou ter outra oportunidade de o fazer. Vá lá, coragem. Enganei-te uma vez. Só uma vezinha. Mas não teve qualquer significado. E juro-te que a criança que trago na barriga é mesmo tua. Sinto-o. Mas faremos o teste, se quiseres. Sim, porque me esqueci de te dizer que estou grávida. Jorge. Tu vais ser pai! Por isso é mesmo melhor que aguentes!

Alice desliga, transtornada. Os dois outros trocam olhares de consternação.

Cristina – Se com isso ele não conseguir aguentar…

Silêncio embaraçoso.

Pedro – O telefone…

Cristina – Não oiço nada.

Pedro – Não, eu queria dizer o telefone do Jorge. Se ele tem o telemóvel, vão poder localizá-lo! É preciso prevenir imediatamente as entidades que se ocupam do salvamento! Talvez ainda haja uma pequena esperança de encontrar a mala… Quero dizer… de encontrar o Jorge. Qual é o número?

Alice entrega-lhe o telemóvel.

Alice – Toma lá, o número está registado aí.

Pedro agarra no telemóvel de Alice e faz a chamada.

Pedro – Merda, agora não tenho rede. Vou tentar na varanda…

Pedro sai.

Alice – Não sei se fiz bem ao ter-lhe falado disto agora.

Cristina – Achas…

Alice – Foi há cerca de três meses. Com o meu dentista. No seu consultório. Não sei o que me passou pela cabeça. Ou então foi efeito da anestesia…

Cristina – É o que tu lhe deves dizer… Que esse porco te drogou para abusar de ti…

Alice – Mas foi apenas uma anestesia local, estás a ver… Para uma cárie pequena… Porque, tudo o resto, posso dizer-te que senti muito bem… Mais do que com o Jorge… E tu, nunca enganaste o Pedro…?

Cristina – Nunca desde que nos casámos…

Alice – Mas vocês só estão casados há seis meses. Depois de quinze anos de vida em comum…

Cristina – Pois…

O regresso de Pedro impede a Cristina de dizer o que estava a pensar.

Pedro – Pronto, eles vão já fazer o que for preciso. E telefonam assim que tiverem novidades.

Cristina – Já vi fazer isso numa série policial na televisão. É muito fácil localizar uma pessoa que tenha o telemóvel com ela. E, em princípio, é muito rápido. Enfim, lá, no meio do Atlântico, mas pronto…

Pedro – O Estreito de Gibraltar.

Alice – Oh, meu Deus. Não sei se o meu coração vai aguentar. Com todas estas emoções…

O portátil toca.

Alice – Já?

Cristina – Como vês…

Pedro – Vá lá, atende!

Alice – Estou? Não, mãe, tenho pena… mas ainda não tive a confirmação da morte dele… Não, não tenho a morada nova da tia Adélia. Mas não achas que ainda é cedo para te preocupares com as participações? Bem, tenho que desligar, não quero ter a linha ocupada. Estou à espera de uma chamada… É isso… Flores, mãe? Ouve, faz o que quiseres, estou-me nas tintas! (Ela desliga, furiosa) A vida é mesmo injusta. Porque é que não foi a minha mãe a viajar nesse avião?

O telefone toca de novo. Alice atende, fora de si.

Alice – Mas tu não me podes deixar em paz? Ai, desculpe, pensava que era a minha mãe… Sim, claro, estou a ouvir… Não, garanto que não é uma brincadeira… O meu marido estava mesmo a bordo desse avião e… Pronto, de acordo, obrigada… Voltam a telefonar-me se houver alguma novidade?

Ela desliga, desmoralizada.

Alice – Eram eles… Conseguiram localizar o telemóvel do Jorge...

Cristina – E então?

Alice – A chamada foi feita da gare de Faro…

Desta vez é o telefone fixo que toca. Cristina atende, mecanicamente.

Cristina – Sim? (Abatida, põe a chamada em alta-voz) É ele…

Os outros dois ficam à escuta.

Alice – Jorge? Mas onde é que tu estás? Toda a gente à tua procura no meio do Atlântico…! Não, não é verdade…! (Para os outros dois) Ele perdeu o avião! Está no combóio Faro-Lisboa!

Pedro – Deus existe…

Alice – Mas tu não sabes de nada? (Para os outros dois) Ele não sabe de nada… O avião da Companhia Voe Connosco Para o Paraíso, que era suposto tu apanhares, despenhou-se no Mediterrâneo… Não há sobreviventes… Deus seja louvado, é um milagre…! (Para os outros dois) Ficou preso na casa de banho de Faro durante duas horas… Não conseguia abrir a porta… E, claro, ele não estava propriamente na sala VIP… Ok… Liga-me assim que chegares a Santa Apolónia, está bem… (Ela prepara-se para desligar mas não o faz) Ainda aí estás… Jorge? Recebeste a minha mensagem? Não, não era importante, podes mesmo apagá-la… Agora que sei que não morreste…

Alice desliga.

Alice (radiante) – Agora acho que vamos poder abrir a garrafa de Moet & Chandon!

Ligeiro embaraço de Pedro e Cristina, que já abriram a garrafa sem ela. Mas que, no entanto, estão nas nuvens.

Cristina – Mas é maravilhoso! Não é, Pedro?

Pedro – Tu encontras o marido e nós…

Cristina – Um amigo!

Pedro – A que horas é que ele chega a Santa Apolónia?

Alice – Daqui a uma hora… Este pesadelo finalmente vai acabar… Obrigada… Sem vocês não sei se teria aguentado isto tudo… (Ela faz menção de se ir embora) Acho que não é hoje que vamos beber o champanhe… Vou buscá-lo à estação e vamos directamente para casa… Depois disto tudo, vocês percebem que tenhamos muita coisa para falar…

Cristina – Claro que sim… Sobretudo se ele ouviu mesmo a tua mensagem…

Pedro – Está fora de questão! Vamos festejar todos juntos. Não é, Cristina?

Alice – Ele é o único sobrevivente… Não sei se devemos… Imagino a angústia das outras famílias que tiveram menos sorte que eu…

Pedro – A vida é uma lotaria! Basta acertar no número! É triste para os outros, mas que se lixem. The show must go on! Não, tu não estás capaz de conduzir. Enervada nunca vais conseguir estacionar o teu 4×4 em Santa Apolónia numa sexta-feira à noite. Vou ligar-lhe e dizer-lhe para apanhar um táxi logo que chegar e vir directamente para aqui. Com a mala…

Alice – Um táxi…? Sabes, não tenho a certeza de que ele tenha dinheiro para pagar… Tires fica longe…

Pedro – Mas nós temos! Não temos, Cristina?

Cristina – Nós também temos uma boa notícia para vos dar… Agora já podemos dizer… Vá lá Pedro, conta…

Enquanto Pedro se prepara para falar, o telefone fixo toca. Cristina atende.

Cristina – Estou… Ah, Jorge… Íamos mesmo agora ligar-te para… (O seu sorriso fica congelado) Ok, passo-ta… (Para Alice) É o Jorge. Ele ouviu a tua mensagem…

Alice, sem saber o que fazer, agarra no telefone e afasta-se um pouco.

Alice – Ouve, Jorge, vou-te explicar tudo, ok? Não fiques assim! Francamente, depois do que acaba de se passar devias relativizar as coisas, não achas? Lembra-te que acabas de passar ao lado da morte! O importante é que estamos ambos vivos! Tu é um sobrevivente, Jorge!

Ela tenta afastar-se mais mas o fio não dá.

Pedro – Oh, que gaita… Só nos faltava mesmo isto…

Cristina – E agora está-se mesmo a ver que não conseguimos que ele venha aqui ter para festejarmos juntos com champanhe…

Pedro – E se ele, sabendo que é cornudo, decide atirar-se ao Tejo. Com a minha mala…

Alice aproxima-se deles, com o semblante desfeito.

Cristina – Então…?

Alice – Ele não quer vir dormir a casa… Fala em divórcio…

Pedro – Então o melhor é que, entretanto, ele venha dormir aqui! Não achas, Cristina? Até já tem a mala feita…

Alice – Ah, é verdade, a mala… Mas isso não é o mais importante…

Estupefacção dos outros dois.

Pedro – O quê?

Alice – Sabem… O Jorge perdeu o avião mas a mala já estava registada… Infelizmente podem dizer-lhe adeus… Ela ficou no porão…

Pedro – Que imbecil! (Para Cristina) Por favor, diz-me que não é verdade!

Alice – Tenho a certeza, felizmente que não era verdadeira… Repara, sabes bem que a contrafação é ilegal… Vi uma reportagem na televisão… Jorge até podia ter tido problemas na alfândega…

Cristina – Para ir a Faro?

Alice – Não, quando passam por Casablanca…

Pedro – Se ela não se vai já embora, ainda a mato…

Alice está um pouco admirada com a reacção de Pedro.

Alice – Não te preocupes, eu compro-vos uma verdadeira, prometo… Devo-vos isso…

Pedro – Isso mesmo! A somar aos 1.000 euros que já nos devem…

Alice – Bem, acho que agora me vou mesmo embora, Cristina! Todos nós tivemos demasiadas emoções para um dia só…

Cristina empurra prudentemente Alice para a porta, para a proteger da fúria de Pedro.

Cristina – Vá, não te preocupes, isto vai acalmar… Telefona-me amanhã, ok?

Alice – Ok, mantenho-te a par do que acontecer…

Alice, ao sair, volta-se para trás uma última vez.

Alice – Já agora, qual era a boa notícia que vocês me iam dar…?

Cristina empurra-a para que saia.

Cristina – Amanhã telefono-te…

Alice vai-se embora. Pedro e Cristina ficam sozinhos. Afundam-se no sofá. Silêncio pesado.

Pedro – 60 milhões de euros…

Cristina, ternamente, faz-lhe uma festa.

Cristina – Vá lá, não é assim tão grave… O importante é estarmos vivos! E estarmos juntos…

Pedro relaxa um pouco.

Pedro – Tens razão…

Cristina – Pensando bem, o que é que nós íamos fazer com os 60 milhões?

Pedro – Também pensei no mesmo…

Cristina – E a nossa relação resistiria a uma tempestade dessas…

Pedro – Sem falar dos nossos amigos… Já viste que nos íamos quase zangando com o Jorge e com a Alice…

Silêncio.

Pedro – Achas mesmo que se ganhássemos 60 milhões nos divorciávamos?

Cristina – Essas coisas podem subir à cabeça… Quando, de um momento para o outro, nos apercebemos que vamos poder satisfazer todos os desejos que reprimimos até então…

Pedro – Tens razão, a frustração é o cimento dos casais… Quando penso que podíamos ter ficado mesmo multimilionários… É cá um arrepio pela espinha acima…

Cristina – Esquece, vamos poder passar uma noite tranquila. Os dois, a ver televisão…

Pedro – Sabes o que é que me descontraía agora…

Cristina (cheia de esperança) – Diz, diz… Estou aqui para satisfazer todos os teus desejos. Para te compensar… pela perda da tua falsa Louis Vuitton.

Pedro – Uma reportagem sobre animais… Sobre a reprodução dos dragões de Komodo, por exemplo…

O entusiasmo de Cristina arrefece como se tivesse levado com um balde de água fria.

Pedro – Sabes que os dragões de Komodo são muito debochados, o dragão… A fêmea deixa-se copular sucessivamente por vários machos e os ovos contêm o património genético de todos os seus amantes… Imaginas a criança da Alice, metade do Jorge e a outra metade do dentista…?

Cristina (deprimida) – Ainda ficou um resto do vinho corrente… O que a Alice não bebeu… Queres? Agora é melhor que nos habituemos a ele…

Ela serve dois copos enquanto Pedro acende a televisão.

Locutor (voz off) – …Acabam agora mesmo de encontrar o rasto do voo 32 das Linhas Aéreas Voe Connosco Para o Paraíso que se pensava ter-se despenhado sobre o Estreito de Gibraltar. O piloto adormeceu aos comandos do aparelho. Em vez e aterrar em Casablanca, continuou a sua rota até ao Sahara onde, por falta de combustível, foi forçado a fazer uma aterragem de emergência.

Pedro – Engraçado, tenho a impressão de que isto já não me diz respeito.

O telefone toca. Cristina levanta-se como um zombie para atender, enquanto Pedro fica colado em frente à televisão.

Locutor (voz off) – Eis algumas imagens do avião da Companhia Voe Connosco Para o Paraíso, filmadas por um avião de reconhecimento da força aérea israelita…

Cristina – Sim…?

Locutor (voz off) – Ainda ignoramos o que aconteceu aos passageiros no interior da carlinga, mas nestas imagens de uma qualidade impressionante, veem-se bem dois camelos a brincar com uma mala…

Cristina – Não…!

Num estado de quase inconsciência, Cristina desliga e volta para ao pé de Pedro.

Pedro – Quem era?

Cristina – O ginecologista da Alice… E meu também… Temos o mesmo…

Pedro – E então…?

Cristina – Ele confundiu os nossos processos… Não é ela que está grávida, sou eu!

Pedro (completamente perdido) – Vocês também têm o mesmo dentista?

Cristina (exultante) – Estou grávida de ti! Vamos ter um filho, Pedro!

Pedro (não muito contente) – Mas… Estava convencido que não podias engravidar… O teu ginecologista tinha-me dito que, devido à preguiça dos meus espermatozoides, só tínhamos uma hipótese num milhão de nos sair a taluda!

Cristina – Mas é sexta-feira 13!

Escuro.

Fim

VARIANTE DA PARTE FINAL PARA UMA QUARTA PERSONAGEM (JORGE)

Pedro não tem tempo de acabar de reagir porque tocam à porta.

Pedro – Se for ela outra vez, diz-lhe para entrar e, desta vez, sou eu quem a vai atirar pela janela…

Mesmo assim, Cristina vai abrir.

Cristina (admirada) – Ah, olá Jorge…! Fizeste boa viagem? Já não te esperávamos…

Jorge (fatal) – Se calhar estou a incomodar-vos?

Cristina – Claro que não, achas? O que é que estás para aí a dizer…

Pedro – Ao ponto a que chegámos.

Jorge entra na sala, num estado semi-inconsciente.

Jorge – Olha o Pedro, estás aqui…

Pedro – Como podes ver. Acontece que moro aqui…

Jorge – Já é tarde, eu sei. Mas com tudo o que me aconteceu…

Pedro – Mas… Não foi o teu combóio que aterrou no deserto, pois não?

Jorge – Não, mas estava a falar da Alice. Ainda estou em choque.

Cristina – Nós estamos desoladíssimos, Jorge… Não estamos, Pedro…?

Pedro – …Hum…

Cristina – Mas senta-te, por favor. Queres beber alguma coisa?

Pedro – Arsénico, estricnina…?

Cristina serve-lhe um copo de vinho corrente.

Cristina – Gelo…?

Jorge não responde. Senta-se e esvazia o copo sem pestanejar, sob o olhar atónito dos dois outros.

Pedro – Bem… Parece que a coisa está mesmo feia… Já nem reage ao vinho corrente…

Jorge – Já estamos casados há dez anos, já viram? Nunca pensei que a Alice fosse capaz de fazer isto…

Cristina – Vá lá… Não achas que estás a fazer uma tempestade num copo de água?

Pedro – Ele acaba de saber que é cornudo, não é fácil…

Cristina – Sempre detestei essa palavra…

Jorge – Achamos que conhecemos as pessoas e depois…

Cristina – Qualquer um pode cometer um erro…

Pedro – Mesmo assim… Ir para a cama com o dentista…

Jorge – Era o meu dentista.

Cristina – Sabes, o principal é que ela tenha tido coragem de to dizer, não achas? Foi muito corajosa…

Pedro – Corajosa? Foi é parva…

Cristina – Isso mostra que ela confia em ti… E a confiança é muito importante num casal, não achas, Pedro…?

Pedro – Assim também eu! Ela pensava que ele tinha morrido…

Cristina – Vais ver… Vocês acabam por fazer as pazes…

Jorge – Não sei… Acho que vou precisar de tempo…

Pedro – Mais ou menos quanto…? Sim, porque como disseste, já começa a ser tarde… tão tarde que só me apetece ir descansar os ossos…

Cristina – O Pedro não escolheu bem as palavras… o que ele queria dizer é que todos tivemos um dia cheio de emoções… Mas é normal que tu queiras afastar-te… Vais dormir aqui no sofá… E amanhã já vais ver tudo de outra maneira…

Pedro – Não podemos prometer que estejas melhor amanhã… Só achamos que uma boa noite de sono vai fazer-te ver as coisas com mais clareza…

Jorge – Obrigado… Eu sabia que podia contar convosco… É nestes momentos que reconhecemos os verdadeiros amigos…

Pedro – Pois… Foi o que a tua mulher se fartou de nos dizer durante toda a noite…

Cristina – Vou buscar lençóis… Pedro, tira ali um cobertor do armário…

Pedro e Cristina desaparecem durante um instante. Jorge levanta-se e vai até à varanda. Aproxima-se da balaustrada e inclina-se ligeiramente. Cristina regressa, vê-o na varanda e fica estática, pensando que ele se prepara para saltar.

Cristina – Jorge, não!

Jorge volta-se para ela algo surpreendido.

Jorge – Calma… Só estava a ver a vista…

Cristina – Oh, meu Deus, assustaste-me… Pensei que…

Jorge – Nunca tinha reparado que, se nos debruçarmos, conseguimos ver o Finalmente Bar daqui da vossa varanda …

Cristina (preocupada com o seu estado mental) – O Finalmente…

Jorge – É um bar.

Cristina – Um bar chique?

Jorge – Sim… Mas é sobretudo um bar gay…

Cristina está um pouco desorientada. Pedro regressa com o cobertor que atira para cima do sofá.

Pedro – Trouxe o cobertor… Mas não vou aconchegá-lo e dar-lhe um beijinho de boa noite.

Jorge lança-lhe um olhar ambíguo…

Cristina – Promete que não vais fazer nenhuma asneira, prometes?

Jorge – Prometo.

Cristina – Ok, então vamos todos para a cama. Nós também tivemos um dia muito duro…

Toca o telefone fixo. Pedro atende.

Pedro – Estou…? Sim, está aqui… Ok, passo-to já… (E passa o telefone a Jorge) É a Alice que quer falar contigo…

Jorge atende, contrariado.

Jorge – Sim… Estou a ouvir… Não… Não sei… Não… Amanhã digo-te… Sim, preciso de reflectir durante uns dias, acho que é compreensível, não…?

Pedro (inquieto) – Alguns dias…?

Jorge – É mesmo assim, depois falamos…

Desliga.

Cristina – Tenho a certeza de que vocês vão resistir a esta prova… e que o casamento vai sair de tudo isto ainda mais fortalecido!

Jorge – Eu também dormi com o dentista…

Cristina (depois de um momento de hesitação) – Estás a ver, não é assim tão grave…

Pedro olha para ela estupefacto.

Cristina (para Jorge) – E eu não te disse! (para Pedro) Dizemos-lhe?

Pedro – O quê?

Cristina – Quem está grávida sou eu, Jorge!

Pedro – Ah, pois é, é verdade.

Cristina – Não é uma boa notícia?

Pedro – Para ti, a boa notícia é que a tua mulher não está grávida do teu amante.

Cristina – Depois de tudo o que nos aconteceu hoje, a nós também… Falava mesmo disso com o Pedro há um bocado. O importante é ficarmos unidos, aconteça o que acontecer… Ultrapassar as dificuldades… Juntos… Por isso o dinheiro, num casal, não é o mais importante!

Jorge – O dinheiro?

Cristina (a Pedro) – Contamos-lhe? (Pedro, abatido, não responde) Imagina só que na mala que te emprestámos para ires a Faro

Jorge – A falsa Louis Vuitton…

Cristina – Tinha lá dentro um talão do euromilhões…

Jorge (distraído) – Sim, um talão do euromilhões…

Cristina – E soubemos esta noite, pela televisão, que tínhamos ganho o 1º prémio…

Jorge – Quanto?

Pedro – 60 milhões! Fomos os únicos.

Jorge – Ah, mesmo assim…

Cristina – O mesmo é dizer-te que jamais veremos esse talão…

Pedro – A menos que os camelos que recuperaram a minha mala vão à Santa Casa receber a taluda.

Cristina – Estás a ver? Acabámos de perder 60 milhões… mas ganhámos um bebé que já não esperávamos!

Pedro – Tal como diz o ditado: Azar ao jogo, sorte no amor…

Jorge – Estou desolado… Refiro-me aos 60 milhões, claro… Ainda por cima a culpa é um pouco minha…

Pedro (ameaçador) – Um pouco…?

Cristina – Acho que devemos mesmo ir dormir. Vens, Pedro…?

Cristina leva Pedro para o quarto. Jorge fica sozinho. Vai para a varanda reflectir. Depois pega no telemóvel e faz uma chamada.

Jorge – Está lá…? Não, não morri… Lamento decepcioná-la uma vez mais, minha sogra… Pode passar à Alice? Obrigado… (Um instante depois) Alice? Sou eu, o Jorge… Ouve, depois de muito pensar… Sim, já, o que é que queres… Normalmente acusas-me de não reflectir depressa… Por isso prefiro dizer-to já… Não vou poder perdoar-te teres ido para a cama com o meu dentista… Vou pedir o divórcio, Alice… Sim, eu sei, que não valho lá muito… Sim, sei, a tua mãe já to tinha dito… Ok, o meu dentista manda-te amanhã os papéis para o divórcio… Sim, o meu advogado, não foi o que eu disse? É isso mesmo, tu também… vai-te lixar… Boa noite, Alice.

Jorge desliga, pensa, depois tira do bolso da camisa o talão do euromilhões e fica a olhar para ele.

Jorge – 60 milhões… Cristina tem razão… Ainda não dormi e já vejo tudo com muito mais clareza… (dando-se finalmente conta) 60 milhões de euros! (A mão treme-lhe, o talão escapa-lhe da mão e cai mesmo na bordinha do parapeito) Merda… Não acredito… Oh, que merda…

Começa a subir ansiosamente para o parapeito. De repente escorrega, grita, perde o equilíbrio e fica estático numa posição insegura. Ouve-se então, como num sonho, um diálogo gravado numa banda sonora:

Alice – O que é que podemos fazer contra o destino…

Cristina – Nada…

Pedro – Mas mesmo assim é incrível…

Alice – Foi o único que não estava naquele avião e acabou por ser a única vítima do acidente da Companhia Voe Connosco Para o Paraíso…

Cristina – Chamaste os bombeiros…?

Pedro – Devem estar mesmo a chegar.

Pedro – Acreditas mesmo que ele se quis suicidar?

Cristina – Não se cai assim de uma varanda…

Pedro – Se ao menos fosse ele o autor do meu quadro… Ainda podia esperar que aquela porcaria valorizasse.

Barulho de uma sirene de ambulância que se aproxima.

Alice – Já chegaram… Vão finalmente dizer-nos se o Jorge está mesmo morto…

Pedro – Parece mesmo muito morto, não achas?

Alice – Pode sempre acontecer um milagre…

Cristina – É sexta-feira 13!

Fim

  

Autor

Nascido em 1955 em Auvers-sur-Oise (França), Jean-Pierre Martinez fez as suas primeiras aparições em palco como baterista de diversos grupos de rock, antes de se tornar publicitário semiólogo. Depois de um período como argumentista para televisão, regressa aos palcos como dramaturgo. Escreveu uma centena de guiões para o pequeno écran e mais de sessenta comédias para teatro, das quais algumas já são clássicas. Hoje em dia é um dos autores contemporâneos mais representados em França e nos países francófonos. Por outro lado, muitas das suas peças, traduzidas em espanhol e inglês, estão regularmente em cartaz nos Estados Unidos e na América Latina. Jean-Pierre Martinez é diplomado em literatura espanhola e inglesa (Sorbonne), em linguística (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales), em economia (Institut d’Études Politique de Paris) e em guionismo (Conservatoire Européen d’Ecriture Audiovisuelle). Foi sua a decisão de disponibilizar todos os textos das suas peças para download gratuito no seu site La Comédiathèque : http://comediatheque.net

 

Pode fazer-se download gratuito

de todas as peças de Jean-Pierre Martinez

no seu site : www.comediatheque.net

 

Todos os direitos de tradução,
adaptação e reprodução são reservados.
Este texto está protegido pelas leis
relativas ao direito de propriedade intelectual.
Qualquer reprodução fraudulenta está sujeita
a uma condenação de até 300 000 euros e 3 anos de prisão.

 

Paris – Décembre 2016

© La Comédi@thèque – ISBN 978-2-37705-070-3

www.comediatheque.net

 

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