UMA HERANÇA PESADA

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Comédia de Jean-Pierre Martinez

traduzida por Concha Sousa Martins

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14 PERSONAGENS

Distribuição de papéis (sugerida): 5H/9M

Muitos dos papéis podem ser masculinos ou femininos,

A distribuição por sexo pode variar muito:

3H/11M, 4H/10M, 5H/9M, 6H/8M, 7H/7M, 8H/6M, 9H/5M

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António acaba de herdar de uma tia, da qual ele desconhecia a existência, um apartamento maravilhoso num dos melhores prédios pombalinos de Lisboa. Acabou de dar a volta ao apartamento com a sua companheira Clara. Mas os segredos de família são como as mentiras que têm perna curta…

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Uma herença pesada 

Uma sala de visitas com uma imponente janela que dá para uma grande varanda de onde se vê o Tejo. Do outro lado um corredor por onde se chega à entrada. Os móveis e a decoração são velhos e kitch. Na parede principal um imponente quadro representando Salazar ainda novo.

António (fora de cena) – Espera que tenho que desligar o alarme. Se não o fizer em 30 segundos vamos acordar todo o prédio e mandam-nos prender como se fossemos ladrões… Bolas qual é o código… Ai… bolas… É o 1234.

Chega Clara. Entra na sala, olha à sua volta e exclama, num misto de admiração e susto.

Clara – Uau!

António (entrando na sala) – Tinha-te prevenido que tínhamos que remodelar o apartamento.

Clara – Falas como um agente imobiliário. Lembra-te que és o proprietário.

António – Ainda me custa a acreditar… Mas espera… Vem aqui ver.

Vão os dois juntos para a janela para contemplar a vista. Desta vez Clara fica maravilhada.

Clara – Uau!

António – Vais ver… Se nos debruçarmos um bocado na varanda até conseguimos ver o Rossio.

Clara – Pois, isto vai mudar a nossa vida. Lá de casa só conseguimos ver o cemitério.

António aproxima-se de Clara, abraça-a.

António – Então? Sempre concordas em passar hoje a tua primeira noite comigo neste apartamento?

Clara – Tudo isto é realmente muito excitante… Mas quero primeiro ver a cama da tua bisavó antes de te responder.

António – Não é a minha bisavó… É a minha tia-avó Lazarina.

Clara – A tua tia Lazarina? Mas que raio de nome… Isso é apelido?

António – Não, era o nome de baptismo da minha tia, irmã mais velha da minha avó.

Clara – A mãe do teu pai?

António – Da minha mãe, ao que parece.

Clara dá mais uma volta à sala.

Clara – E tu nunca a viste.

António – Eu nem sabia que a minha avó tinha uma irmã.

Clara – É de doidos.

António – O quê?

Clara – Que os teus pais nunca te tenham falado dessa tia Lazarina.

António – Pois é.

Clara – E agora herdas a casa dela.

António – Parece que sim, ela não tinha filhos. E como os meus pais já morreram o notário disse que eu era o único herdeiro.

Clara – Mesmo assim é triste, não achas? Durante todos estes anos ela vivia aqui, a dois quarteirões da editora onde trabalhas e tu soubeste da morte dela por um telefonema do notário…

António – Nem isso… quando recebi a carta do notário ela já tinha sido enterrada.

Clara (pegando numa moldura que está sobre a cómoda) – É ela?

António – Sim… Imagino que seja.

Clara – Era bem bonita… quando jovem.

António – Até era.

Clara – É só isso que sabes dizer?

António – O quê?

Clara – Sei lá… Ela já morreu… Nunca a vais conhecer… Só te resta uma fotografia…

António – E o apartamento!

Clara – E não te afecta saber que a tua tia morreu?

António – Ah sim, garanto-te que me afecta.

Clara – O quê?

António – Para te ser franco, tenho a impressão de ter ganho a lotaria.

Clara (voltando a por a fotografia no seu lugar) – É claro… e não vamos ter saudades do nosso T1 da Amadora.

António – Claro que não… Já viste que se acabam os comboios e posso ir a pé para o trabalho.

Clara – E eu também… O liceu nem fica longe.

António – Não teremos que pagar mais rendas. Na baixa de Lisboa. Um apartamento com uma bela varanda, no último andar, com elevador e tudo num belo prédio pombalino.

Clara – Pronto… Lá estás tu outra vez a falar como um agente imobiliário.

António – Até conseguiram fazer um parque de estacionamento no jardim das traseiras.

Clara – Mas nós nem carro temos…

António – Deves estar a brincar… Fazes ideia por quanto podemos alugar um estacionamento nesta zona?

Clara – Não, por quanto?

António – Não sei dizer-te exactamente, mas pelo menos por metade do meu ordenado. Ai isso com certeza.

Clara – Então podes alugar o estacionamento e passar a meio tempo. Assim poderás começar a escrever o teu primeiro romance. Não vais passar o resto da tua vida a publicar os livros dos outros.

António – Mas primeiro é preciso que encontre um assunto.

Clara – Olha, podias escrever a história desta misteriosa avó.

António – Tia-avó!

Clara – Uma mulher que devia ser quase centenária, que devia ter para aí uns vinte anos na segunda guerra mundial. Deve dar assunto para um romance.

Clara dá uma volta inspecionando mais uma vez a sala.

António – É verdade que o ar está pesado…

Clara – Eu diria mesmo um pouco assustador. Dir-se-ia que o fantasma de Lazarina anda pelo apartamento.

António – Se calhar é melhor chamar um exorcista para afastar as almas e fantasmas antes de nos mudarmos para cá.

Clara – Achas?

António – Começaremos por despachar todas estas velharias e depois pintaremos a casa toda.

Clara – Realmente a casa é um bocado sombria.

António (aproximando-se novamente da janela) – Sim… mas olha-me só esta vista… maravilhosa! E todos estes telhados que se vêm daqui…

Clara – E atrás de cada janela homens e mulheres com as suas histórias, os seus destinos.

António – É verdade… É muito romântico.

Clara – Lisboa…

António – Uma das mais belas cidades do mundo.

Clara – E das mais românticas.

António – Centenas de apartamentos como este. Milhares de pessoas e milhares de histórias que estão a ser escritas.

Clara – Sim… Consegues imaginar que neste momento haverá pessoas a fazer pedidos de casamento?

António – E outros em plena discussão sobre o divórcio.

Clara – Estão a nascer bebés um pouco por todo o lado.

António – E velhos a finarem-se como a tia Lazarina.

Clara – Algumas pessoas devem estar a lavar a loiça.

António – E outros a fazer amor…

E começam a abraçar-se. São interrompidos pela campainha da porta.

Clara – Quem é que poderá ser?

António – Sei lá… Não conheço ninguém neste prédio.

Clara – Será o fantasma da tia Lazarina?

António – Eu vou lá!

Clara – Queres que vá contigo?

António – Deixa estar… mas se eu não voltar dentro de cinco minutos chamas um exorcista, ok?

António sai e Clara fica parada à frente do quadro e, intrigada, examina-o.

António (off) – Ah sim… Não, de maneira alguma… Por favor entre.

António regressa seguido por Graziela.

Graziela – Não queria incomodá-los. Mas foi a porteira, a Dona Idalina, que me disse que o tinha visto subir com a sua mulher. (Dando-se conta de que Clara está na sala) Não sei se é sua mulher… Boa tarde menina.

Clara – Boa tarde minha senhora.

António – Clara, apresento-te a nossa vizinha Graziela Forte que é a administradora deste condomínio.

Graziela (com ar de circunstância) – Meu caro Senhor, em nome de todos os condóminos do prédio que tenho a honra de representar, por favor aceitem as nossas mais sinceras condolências.

António – Muito obrigado, mas sabe…

Graziela (interrompendo) – A sua tia era uma pessoa excepcional. Com o seu feito, é preciso dizê-lo. Mas encantadora. Todos os vizinhos eram muito ligados a Lazarina.

António – Fico muito feliz por sabê-lo.

Graziela – Para todos nós Lazarina era bem mais do que uma vizinha. Todos a ajudávamos quando era preciso, às vezes íamos às compras, ocupávamo-nos de coisas administrativas…

Clara – Ai sim?

Graziela – Resumindo, todos fazíamos os possíveis para ela se sentir menos sozinha. Recebia muito poucas visitas, como deve saber. Todos os dias a rodeávamos da nossa afeição. E ela retribuía muito bem, pode crer.

António – Ai sim… está… Está bem.

Graziela – Para Lazarina os vizinhos eram uma espécie de família. Aliás eu ignorava que ela tivesse outra… Pelo menos ela nunca nos falou disso.

António – Isso não me espanta… O que é verdade é que eu conhecia muito mal a minha tia Lazarina.

Graziela – Ah… Efectivamente não me lembro de o ter visto no enterro.

António – Para lhe dizer francamente eu…

Clara, já irritada com a conversa, intervém.

Clara – Penso que a senhora não veio apenas para conversar e nós não a queremos reter demasiado tempo. Deve ter alguma coisa para nos perguntar, não? Entre vizinhos… Um pezinho de salsa, sal, fósforos, um saca-rolhas.

António – Ou um quebra-nozes…

Graziela – Quanto ao saca-rolhas não andou longe… É um pouco embaraçoso… Devido às circunstâncias…

António – Desembuche.

Graziela (tossindo) – Desculpem… É como se tivesse uma rolha na garganta…

António – Quer beber alguma coisa?

Clara (lançando um olhar de reprovação ao companheiro) – Não sei se há alguma coisa que lhe possamos oferecer.

Graziela – Basta-me uma copo de água, obrigada.

Clara – Eu nem sei onde fica o frigorífico.

Graziela – Não se preocupe, posso beber água da torneira. Aqui no bairro ela é muito boa, hão-de ver. Não vão precisar de carregar garrafões de água mineral. Sobretudo quando se mora no último andar, como os senhores. Mesmo com o elevador… Há uma torneira na cozinha: a segunda porta à esquerda no corredor. E há copos no armário que fica mesmo em cima.

Clara sai para ir buscar o copo de água, um pouco chateada.

Graziela – Pronto, vou-lhe dizer o que me trouxe aqui… É que hoje é a festa dos vizinhos e desde que esta festa existe a sua tia sempre insistiu para que fosse organizada na sua casa.

António – A festa dos vizinhos…? Então era isso…

Graziela – Uma tradição, se quiser. Sem dúvida por causa do terraço ser tão grande e ter uma vista tão bonita sobre a cidade e o Tejo.

António – Claro…

Graziela – É preciso dizer que este é o apartamento mais bonito do prédio. E como Lazarina estava sozinha, sempre era uma companhia.

António – Mas, infelizmente, ela morreu, não é…

Graziela – Claro que sim… mas ficaria com certeza muito feliz de nos saber todos reunidos aqui uma última vez.

António – Quer dizer que… Nós não tínhamos previsto.

Graziela – Mas não tem que se preocupar com isso, nós tratamos de tudo como de costume… Quero dizer, como quando o fazíamos com a sua tia Lazarina.

Clara entra com um copo de água que dá a Graziela.

Graziela – Muito obrigada.

Clara – Por quem é… De nada.

Graziela (pousando o copo sem ter bebido) – Como eu estava a dizer ao seu marido.

Clara – Nós ainda não somos casados, se é isso que quer saber.

António (intervindo para quebrar a tensão) – A Senhora Dona Graziela veio convidar-nos para a festa dos vizinhos.

Clara – A festa dos vizinhos…? É… é muito amável da sua parte… mas quando é a festa?

Graziela – Bom… a festa é hoje.

António – E a ideia é que seja aqui em casa.

Clara – Em nossa casa? Porquê em nossa casa? Queres dizer aqui?

Graziela – Digamos que… seria uma espécie de festa de despedida.

António – Mas nós acabámos de chegar…

Graziela – Eu queria dizer de adeus. Adeus a Lazarina. Como não puderam assistir ao enterro…

António – Com certeza.

Graziela – Bom, então como estão de acordo, está combinado. Não sei como agradecer-vos…

António e Clara, apanhados de surpresa, trocam um olhar e sorriso forçado.

António – Não tem de quê… por favor.

Graziela – E… já agora… os senhores têm intenção de vir morar neste apartamento?

António – Hum… sim… Enfim…

Graziela – Então assim terão oportunidade de conhecer todos os vossos futuros vizinhos. Dois coelhos de uma cajadada.

António – E porque não.

Graziela – Pronto, vou andando. Ainda tenho coisas para fazer… para a festa, claro… Então até mais logo.

António – Até logo. (E preparando-se para a acompanhar à porta) Eu acompanho-a.

Graziela – Não se mace, conheço muito bem o caminho.

António – Está bem.

Graziela sai. António e Clara trocam olhares embaraçados.

António – Tenho a impressão de que ela não nos deu qualquer hipótese, não achas?

Clara – Achas? Tu também não te defendeste muito, pois não?

António – Tu deixaste-me sozinho com ela.

Clara – Mas foste tu que me mandaste ir buscar um copo de água à cozinha. Reparaste? Ela nem uma gota bebeu.

António – Ainda nem sequer aqui moramos e vamo-nos já zangar com os vizinhos?

Clara – Ok… Mas daí a termos que levar com eles logo no primeiro dia…

António – Tens razão… Ela enrolou-nos mesmo com a história da festa dos vizinhos.

Clara – Podes crer… Ainda por cima nunca ouvi falar desta festa.

António – Não?

Clara – E tu ouviste?

António – Também não!

Clara – Toda a gente sabe que no final de Dezembro só se festeja o Natal. Sabes ao menos isso?

António – Mas que ideia mais estúpida… Porque será que eles festejam os vizinhos no mês de Dezembro?

Clara – Isto parece-me uma marosca… Assim como ser em nossa casa… Isto começa bem… Promete!

António – Bem… vejamos o lado bom das coisas. Isso vai-nos permitir conhecer todos os vizinhos de uma só vez.

Clara – Mas não era urgente. Acabámos de chegar…

António – Mas o que é que tu queres. Agora somos coproprietários. Isso implica alguns incómodos.

Clara – Tu és coproprietário!

António – Seja como for teremos que nos dar com eles para a gestão do prédio e a Graziela é a administradora. Eu não podia despachá-la.

Clara – Graziela Forte… Ela foi mesmo forte… Mais forte do que tu.

António – Mas já viste que isso nos poupa um jantar de boas vindas… Ela disse que tratam de tudo.

Clara – É verdade que eles parecem ter uma desagradável tendência de se ocuparem de tudo, incluindo das coisas que lhes não dizem respeito. Não sei porquê mas esta copropriedade cheira-me a esturro.

António – Logo se verá… Se não forem simpáticos nunca mais os convidamos.

Clara – Mas foram eles que se auto convidaram.

António – Vá lá… Não vamos discutir por tão pouco.

António abraça Clara.

Clara – Tens razão… O principal é que finalmente estamos na nossa nova casa.

António – E se continuássemos a dar a volta do proprietário?

Clara (livrando-se do abraço e voltando-se para o quadro) – Ele dá ares ao Salazar, não achas?

António – Com as fatiotas da época eram todos muito parecidos. Mas parece um pouco jovem, não?

Clara – O Salazar também foi novo.

António – É verdade… Temos dificuldade em pensar que as pessoas importantes não nasceram todas como as conhecemos… Que o rei Dom Carlos foi um jovem imberbe, o Marquês de Pombal um adolescente cheio de borbulhas e Salazar um bebé com bochechinhas.

Clara – De qualquer maneira esta pintura não é de um mestre… Mesmo com uma moldura de tão boa qualidade.

António – É pena… Ajudaria bastante a pagar o imposto sucessório.

Clara – Imposto sucessório?

António – Este apartamento não vai ficar de borla. Tratando-se de uma parente afastada o imposto é bastante elevado. E a tia Lazarina não deixou nem um euro no banco… Só mesmo o andar.

Clara – E esse imposto será de quanto?

António – O notário ainda não me disse a quantia certa. No pior dos casos, peço um empréstimo ao banco. Sempre será melhor que pagar uma renda.

Clara – Não sei porquê mas começo a perguntar-me se tudo isto vai ser tão simples como pensámos.

António – Queres que te mostre o terraço?

Clara (com um ar atrevido) – E se me mostrasses primeiro o quarto?

António – Ok…

Ele segura na mão dela e vão enamorados pelo corredor. Mas, uma vez mais, a campainha toca.

Clara – Outra vez?

António – Deixa tocar… Não somos obrigados a abrir.

Clara – Acabas de convidar o prédio todo para a Festa dos Vizinhos… Não os podemos deixar lá fora.

António – Achas que já são eles?

Clara – Quem é que pensas que poderá ser? O Pai Natal?

António – Vou abrir…

Clara – Deixa estar… Agora vou lá eu… Eu trato disso.

António (um pouco inquieto) – Ao menos tenta ser amável.

Clara – Vou ser a dona de casa ideal, prometo.

António – Ok.

Clara sai. António fica na sala e suspira. Intrigado é agora ele que olha para o quadro. O telefone fixo, um modelo já antiquado, toca. António hesita e atende.

António – Estou… Sim, é aqui. Não, sou o sobrinho neto… A Festa dos Vizinhos? Ah, sim, é mesmo aqui. Pronto, de acordo, até já.

Desliga o telefone. Clara chega com Graziela que traz um alguidar de sangria e com a D. Sara Curado que traz uma tarte.

Graziela – Aqui está a sangria.

Sara Curado – Boa tarde, boa tarde… Eu fiz uma tarte de cebola.

Graziela – O ano passado era de alhos franceses, não?

Sara Curado – Obrigada… Eu tinha dito que mudaria. E para ser sincera não tinha alhos franceses em casa. Espero que gostem de cebola.

Graziela – Oh Doutora, toda a gente gosta de cebolas. Ainda por cima as cebolas são óptimas para a saúde. Eu ponho-as em tudo.

Sara Curado – Espero que não tenha posto na sangria.

Ambas riem à gargalhada e António e Clara olham-nas aterrorizados.

Graziela – Oh mas que esquecimento. Apresento-vos a Doutora Sara Curado que tem o consultório aqui por baixo. Confessem que é muito prático ter um médico no prédio. Também temos um dentista mas agora está morto… Quero dizer, está reformado desde o mês passado e foi para a terra. O seu substituto ainda não chegou.

Sara Curado – Meus senhores, muito prazer.

António – Doutora…

Sara Curado (interrompendo) – Por favor trate-me por Sara. Mas eu não sei se ouvi os vossos nomes.

Clara – Clara.

António – E eu sou António.

Sara Curado – Minha querida Clara, se fizesse o favor de tirar as coisas de cima da mesa para podermos instalar os comes e os bebes.

Clara tira tudo o que está sobre a mesa.

Sara Curado – António, se não lhe der muito trabalho, deve haver uma toalha ali naquele móvel. Sempre fica melhor com uma toalha.

António abre o armário mas parece não encontrar a toalha.

Sara Curado – Mesmo no fundo.

António tira a toalha e estende-a sobre a mesa. Graziela pousa o alguidar da sangria e Sara Curado a tarte.

Graziela – Pronto… Assim os convidados vêm servir-se aqui na sala. A propósito não sei o que estarão a fazer… Já cá deviam estar… Mas se quiserem ir para o terraço enquanto esperamos.

António – Está bem.

Sara Curado – Afinal de contas estão em vossa casa.

Clara – Obrigada por no-lo relembrar.

A campainha toca mais uma vez.

Sara Curado – A Graziela já estava a dizer mal deles e, por uma vez, chegam a horas.

Graziela – Eu vou abrir… Mas depois deixo a porta entreaberta porque senão não vamos fazer outra coisa… toda a tarde a abrir a porta.

Graziela sai. Troca de sorrisos um pouco amarelos.

Sara Curado – Fui eu que assisti a vossa tia nos seus últimos momentos.

António – Ai sim. Infelizmente eu não tive o prazer… Quero dizer…

Clara – E… ela morreu de quê?

Sara Curado – Meu Deus, sabem… Depois dos noventa anos… será preciso morrer de qualquer doença em particular? O importante, e isso posso assegurar, ela não sofreu.

Chega o casal Grude, ele com uma salada de atum e ela com uma couve-flor gratinada. Logo atrás vem Graziela.

Sérgio Grude – Boa tarde, desculpem não vos apertar a mão mas estou com ela ocupada. Onde é que posso pôr isto?

Melissa – Não vês a mesa mesmo à tua frente… aliás, como sempre…

Pousam os pratos e viram-se para António e Clara.

Sérgio Grude – Sérgio Grude, agente de seguros. Esta é a minha esposa Melissa.

Melissa – E os senhores devem ser António e Clara.

Clara – Sim, somos… Aqui as novidades sabem-se depressa pelo que vejo.

Sérgio Grude – No tempo do Salazar, para serem porteiros deste prédio, a Idalina e o marido tinham que ser da situação ou até mesmo agentes da PIDE.

Melissa – Fiz uma salada russa com atum e uma couve-flor gratinada.

Sérgio Grude – Espero que gostem de couve-flor.

Melissa – Porque é que dizes isso?

Sérgio Grude – Porque eu detesto couve-flor… e tu sabes.

Melissa – Foi por isso que fiz também a salada. Mas a couve-flor faz muito bem e estamos no tempo dela. O António gosta?

António – Desculpe, estava distraído… Gosto de quê?

Melissa – De couve-flor.

António – Sim, mais ou menos.

Sérgio Grude – Não sabia que havia uma época para as couves-flores, pensava que havia todo o ano.

Melissa – São gratinadas com queijo parmesão. É excelente, vão ver. E muito boas para a saúde, não é Doutora?

Sara Curado – O que lhe posso dizer é que na minha já longa carreira nunca tive nenhum caso de morte por ingestão de couve-flor gratinada com parmesão.

Sérgio Grude – Isso porque nenhum dos seus doentes provou a da minha mulher.

Melissa lança um olhar fulminante ao marido.

Sérgio Grude – Não vês que estou a brincar, Melissa… Estamos aqui para nos divertirmos… entre vizinhos.

Clara – Sim… e a coisa promete.

O telefone fixo volta a tocar. Antes mesmo que António tenha tempo de reagir, Graziela atende.

Graziela – Sim, estou… Ai é o senhor Padre Santos… Sim, sim, compreendo… Não, não há qualquer problema, esperamos pelo senhor. De acordo, então até já.

Graziela desliga o telefone sob o olhar estupefacto de António e Clara.

Graziela – Era o Padre Santos. Ele atrasou-se porque teve que ir dar uma extrema-unção de urgência mas já vem ter connosco.

Clara – O Padre Santos?

Graziela – Sim, eu sei… é um nome predestinado. O Padre Santos é realmente um santo homem.

Sérgio Grude – Ele mora no rés-do-chão desde que a sua igreja foi vendida pelo bispo a um casal homossexual para fazerem um hostel que aceita gays.

Sara Curado – Parece que a Igreja está em crise, também ela… e até já está a vender as joias de família.

Graziela – Nem sabe a verdade que acaba de dizer. Infelizmente de hoje em dia há alturas em que temos a impressão de viver no reino de Sodoma.

Pausa

Sara Curado – Posso servir-vos qualquer coisa… só para começarmos.

Sérgio Grude – Vamos, a festa vai começar.

Graziela – Quem quer sangria?

Melissa – Eu quero.

Graziela – Muito bem… Então sangria para todos!

Sérgio Grude – Pelo menos para a sangria não precisamos de saca-rolhas.

Gargalhada geral, excepto de António e Clara que se esforçam por sorrir trocando entre si um olhar inquieto.

Sara Curado – É uma piada nossa porque a Lazarina nunca sabia onde tinha o saca-rolhas.

Graziela – Nos últimos tempos a vossa tia já não estava lá muito bem da cabeça, sabem…

Sara Curado – Com quase cem anos é normalíssimo já não ter uma memória muito fresca… tirando isso ela ainda estava muito bem para a sua idade, podem crer

Clara – Resumindo, ela morreu cheia de saúde, não é Doutora?

Momento de embaraço, interrompido pela chegada do Padre Santos, acompanhado pela Baronesa de Pedrógão.

Padre – Boa tarde a todos e as boas vindas aos novos proprietários.

Sérgio Grude – Ah … eis que chega o senhor Bolacha.

António – Boa tarde Senhor Bolacha.

Gargalhada de todos os vizinhos.

Sara Curado – Eles são impagáveis.

Graziela – Não liguem, é mais uma piada que só nós entendemos – todos os anos, sistematicamente, o padre Santos chega à Festa dos Vizinhos com um pacote de bolachas.

Padre – E ei-las… Não quis quebrar a tradição.

Tira da algibeira um pacote de bolachas que pousa na mesa, antes de dar um aperto de mão a António e Clara.

Padre – Sou o Padre Santos. E esta senhora é a Baronesa de Pedrógão.

Melissa – Que, como de costume, não traz nada… presumo.

Pequena pausa.

Baronesa – De qualquer maneira há sempre comida a mais. E cada um acaba por se ir embora com os seus restos. Mais vale comer os restos.

Nova gargalhada geral.

Graziela – Acho que nos vamos divertir imenso.

Padre – Sem esquecer que este ano a Festa dos Vizinhos tem para todos nós um significado muito especial.

Graziela – É verdade, desculpem… Por momentos esqueci-me que a pobre Lazarina nos deixou.

Padre – Sim, é muito comovente estarmos todos reunidos em casa dela esta tarde. Tenho a impressão de que ela vai entrar por aquela porta a qualquer momento, para nos trazer aquele suculento bolo de nozes do qual se recusava a dar-nos a receita.

Melissa – A vossa tia gostava muito de segredinhos.

António – Não sou eu quem vai dizer o contrário. Ela conseguiu mesmo esconder-me a sua existência.

Padre – Tive o privilégio de ministrar os últimos sacramentos à vossa tia antes de Deus a chamar a si. Podem ficar tranquilos pois ela não partiu sem ajuda da religião.

António – Ah sim… Isso é muitíssimo confortante.

Clara – Então concluo que Lazarina era muito crente.

Padre – Crente? Eu diria mesmo beata, sem ofensa, claro.

Graziela – Quando via na televisão as Paradas Gay, acreditem que ela nunca deixava de fazer um comentário. Tinha uma aversão profunda aos homossexuais.

Clara – Tinha?

Consternação de António e Clara.

Sara Curado – Tinha sim… Belos tempos…

Melissa – Quando nos juntávamos todos para defender os nossos valores comuns.

Graziela – E para fazermos um piquenique no parque Eduardo VII, regado com o excelente vinho de missa, não é senhor Padre?

Padre – Acho que a Lazarina teria desejado que este ano celebrássemos este dia num belo convívio. (Levanta o copo) À memória dessa mulher excepcional.

Todos levantam os copos, fazem uma saúde e bebem. A entrada da gótica Ângela arrefece o ambiente.

Graziela – Eis meus amigos a nossa vizinha.

Ângela – Boa tarde velhotes. Há alguma coisa que se beba? Já me está a faltar uma pinga.

Graziela – Ângela é pintora e tem o atelier aqui no prédio.

Sara Curado – A Melissa não se importa de servir um copo de sangue à menina Ângela?

Melissa – A minha amiga quer certamente dizer sangria.

Sara Curado – Não foi isso que eu disse?

Melissa serve um copo de sangria à pintora que o emborca e bebe de um trago só, sob o olhar reprovador de todos os vizinhos.

Ângela – Estava mesmo com sede.

Clara – E que estilo de quadros é que pinta, Ângela? Abstracto? Figurativo?

Ângela – Presentemente estou no meu período encarnado.

António – Muito bem… Como o Picasso, não?

Ângela – Não, não… Pelo menos eu… queria dizer que neste momento só carburo com vinho tinto… Se não bebo pinto muito pouco.

Risos forçados de todo o grupo.

Graziela – Vocês sabem como são os artistas…

Padre – E se passássemos para o terraço?

Sérgio Grude – Boa ideia.

Saem todos para o terraço deixando na sala apenas António, Clara sozinhos com Angela.

Ângela – Não tenham receio, contrariamente ao que possa parecer, não sou uma vampira. Se aqui há alguém que bebe sangue são eles.

Clara – Está a falar a sério?

Ângela – Sabem como é que a vossa avó morreu?

António – Era minha tia-avó… Já era muito idosa. Para ser sincero nem pensei nisso.

Ângela – A Lazarina estava em plena forma, acreditem. Ela teria chegado facilmente aos cem anos.

Clara – Ou muito me engano ou há aí uma pequena suspeita…

António – Alguém tinha razões de queixa da minha tia?

Ângela (esquivando-se a responder) – Gostam deste quadro?

António – Meu Deus… é muito banal e pretensioso, não acha?

Ângela – Foi pintado por mim.

Clara – Não, ele até é muito bom… Até consigo perceber qualquer coisa de…

Ângela – Não se canse. Foi apenas uma encomenda da Lazarina.

António – A sério?

Clara – Será o seu apaixonado dessa época?

Ângela – De qualquer maneira, para o fazer, ela deu-me uma fotografia do Salazar quando jovem. Penso que ela o terá conhecido.

A Baronesa regressa.

Baronesa – Não se preocupem comigo.

A Baronesa enche o seu saco com algumas das vitualhas que estão sobre a mesa. E depois serve-se de um copo de sangria que leva aos lábios com ar de repugnância.

Baronesa – Sangria… é tão vulgar…

A baronesa regressa ao terraço.

Clara – Ela é mesmo baronesa?

Ângela – Efectivamente não sabemos se ela tem mesmo esse título ou se tem esse apelido por ter nascido em Pedrógão.

Pausa.

Clara – Mas sabe algo sobre a morte da tia do António que nós devêssemos saber?

António – Eu pensava que ela tinha morrido de ataque cardíaco ou qualquer coisa do género.

Ângela – Não tenho a certeza absoluta mas aparentemente nem todos estão de acordo sobre as circunstâncias e causas da morte.

Clara – E quais são os cenários possíveis?

António – E eu a pensar que ela tinha morrido na cama aqui em casa.

Ângela – Cinco andares.

Clara – O elevador podia estar avariado… e se ela subiu a escada, com a sua idade, o coração poderá ter falhado.

Ângela – Tendo em conta o estado do corpo quando ela foi encontrada, ela não parece ter descido de elevador.

António – Ah sim?

Ângela – Segundo a Dona Idalina, a porteira, não era uma cena bonita de ver. Vocês nem a teriam reconhecido.

António – Tanto mais que eu nunca a vi.

Clara (sonhadora) – Uma queda? Do terraço?

António – Mas a balaustrada é suficientemente alta para que pudesse cair. A menos que a tenha saltado voluntariamente.

Ângela – Ou que alguém a tenha ajudado a saltar.

Clara – Um homicídio? É uma acusação muito grave.

António – Já não percebo nada. A Doutora Sara Curado disse-me que tinha acompanhado a minha tia nos seus últimos momentos de vida.

Ângela – Em todo o caso foi ela quem assinou a certidão de óbito, o que explica que não tenha havido qualquer inquérito. De qualquer maneira, com mais de noventa anos já não interessa à polícia.

Clara – Mas isso é monstruoso.

Ângela – Acho que também vou apanhar ar no terraço. Mas se me encontrarem no pátio saberão que não foi um suicídio.

Ângela sai. António e Clara trocam olhares aterrorizados.

António – Começo a interrogar-me se esta herança é tão boa como parece.

Clara – Se calhar é invenção dela.

António – De quem?

Clara – Dessa Ângela! Ela tem um ar meio esquisito.

António – Digamos que ela não é muito normal.

Clara – Mas como os outros também parecem não bater lá muito bem… Tu achas que eles podem ter assassinado a tia Lazarina?

António – E porque teriam feito isso? Até parece que gostavam muito dela.

Clara – É o que eles dizem… Quanto ao padre, é curioso, a sua cara não me é estranha.

Joe, travesti, chega sem que eles deem por isso.

Joe – Boa tarde.

Assustados, eles dão um salto.

Clara – Olhe que me pregou cá um susto.

Joe – Desolada… A porta estava entreaberta e por isso entrei. A Festa dos Vizinhos é aqui, não é?

António – Sim, é…

Joe – Vocês devem ser o António e a Clara.

Clara – E você quem é?

Joe – Sou Joe. Acabo de me mudar para o prédio. Sei, ou receio, que a minha presença seja uma espécie de nódoa no prédio. Aqui vivem sobretudo profissões liberais, aparentemente.

António – Então deduzo que não é nem advogada nem médica.

Joe – Contudo também eu trabalho a recibos verdes… No que diz respeito ao fisco, se me faço entender.

Sérgio Grude regressa à sala com Graziela e o Padre Santos.

Graziela – Mas o que é isto?

Joe – Sou a nova proprietária do segundo andar.

Graziela – Do segundo direito?

Joe cumprimenta Sérgio Grude com um beijinho.

Joe – Tudo bem, meu querido?

Sérgio Grude (atrapalhado) – Felizmente a minha mulher ficou lá fora.

Graziela – Mas esse apartamento está desocupado há anos.

Joe – Pois, mas já não está. A porteira disse-me que estavam a celebrar a Festa dos Vizinhos e como sou uma vizinha nova decidi que seria uma boa ocasião para…

Sérgio Grude – Fez muito bem!

Melissa (voltando à sala) – O que é isto?

Sérgio Grude – Cara senhora, apresento-lhe a minha mulher Melinda.

Melissa – Chamo-me Melissa!

Sérgio Grude – É verdade, desculpa. Melinda é a minha secretária e faço sempre esta confusão.

Joe – Boa tarde Melissa, prazer em conhecê-la. Não se importa que a trate por Melissa, espero.

Melissa – Minha senhora, permite-me que a trate por senhora?

Joe – Por favor, chame-me Joe.

Melissa – Joe é o diminutivo de?

Joe – Não, não… o meu nome é mesmo Joe.

Melissa – Só Joe… Estou a ver… Prefere manter um pouco de mistério.

Sérgio Grude – De qualquer maneira contamos consigo para dar a esta festa um pouco de ambiente. Porque até agora parece que estamos a velar um morto. (Olhando para António e Clara) Desculpem, em não me referia à Lazarina… A sua partida deixou-nos a todos muito emocionados.

Melissa – Efectivamente é um pouco estranho estarmos aqui no meio dos seus móveis e bibelôs… Não sei se é o momento adequado mas a Lazarina sempre me disse que quando morresse me deixaria esta cómoda.

Clara – Não me diga…

Sérgio Grude – Na minha qualidade de agente de seguros estou habituado a avaliar móveis antigos e outras antiguidades e posso-vos dizer que esta cómoda apenas tem valor sentimental.

António – Porque não? Já era nossa intenção mudar a decoração da casa antes de nos mudarmos.

Clara – E se foram os últimos desejos da tia Lazarina…

A baronesa regressa.

Baronesa – Sim… também ela já cá não está para dizer o contrário, não é verdade? Aliás, parece que a tia Lazarina se deu conta de que o fim estava para breve porque a mim… prometeu-me o jarrão chinês.

Melissa – A si? Ela mal a conhecia…

Baronesa – Nem sempre precisamos de conhecer as pessoas há muito tempo para nos afeiçoarmos a elas.

Chega a porteira Idalina.

Idalina – O jarrão chinês? Ela queria dar-mo… a mim.

Melissa – Esta senhora é a nossa porteira Idalina.

Idalina (apontando para a Baronesa) – Mas quem é que ela pensa que é, aquela ali?

Baronesa – Você duvida da minha palavra?

Idalina – Não vale a pena dar-se ares de grande senhora comigo. Já há três gerações que familiares meus ocupam o lugar de porteiro deste prédio.

Baronesa – Porteiros há três gerações… Está a falar de prédios de nobreza? E se voltasse para o seu cubículo?

Idalina – Porque a Senhora Baronesa mora num castelo. A senhora mora apenas num rés-do-chão. (Irónica) Dona Maria Benta… de Pedrógão.

Baronesa – De qualquer maneira esse jarrão é meu. Foi a velha que mo ofereceu. Ela gostava muito de conversar comigo.

A baronesa apodera-se do jarrão.

Idalina – O jarrão é meu, já lhe disse. A Dona Lazarina prometeu-mo. Durante trinta anos fui sempre a sua empregada de limpeza e nunca parti nada.

Idalina puxa o jarrão para o tirar das mãos da Baronesa.

Padre – Minhas senhoras, por favor … um pouco de discrição.

Baronesa – Deixa isso porcalhona.

Padre – Por favor Senhora Baronesa, cabe-lhe a si dar o exemplo. São Martinho não deu metade da sua capa a um pobre?

Baronesa – Este aqui deve ser parvo. É um jarrão! Como é que quer que eu dê metade dum jarrão?

A Baronesa e a Porteira continuam a disputar o jarrão que acaba por cair e partir-se em bocados, sob o olhar aterrorizado de António e Clara.

Padre – Estava-se mesmo a ver…

Idalina – Estou desolada.

Baronesa – Mas a culpa foi minha, não sei o que me passou pela cabeça.

Sérgio Grude apanha os cacos e pousa-os sobre a mesa.

Sérgio Grude (virando-se para António e Clara) – Desculpem-nos… Estamos todos um pouco nervosos.

Melissa – E emocionados. Todos nós temos dificuldade em fazer o luto da herança da Lazarina.

Graziela – Quer certamente dizer fazer o luto da própria Lazarina, não?

Sérgio Grude – Como já vos disse tudo o que aqui está nesta casa não tem qualquer valor comercial. São apenas recordações.

Graziela – E as recordações não têm preço, não é?

O Padre pega nos cacos suspirando.

Padre – Lembremo-nos do Santo Graal.

Joe – E se fossemos para o terraço apanhar ar?

Saem todos deixando António e Clara na sala.

Clara – São loucos furiosos, digo-te eu.

António – É verdade que a um dado momento pensei que elas se iam mesmo pegar.

Clara – E tudo isso por causa de um jarrão.

António – Faremos o inventário deste museu de horrores e depois se verá, não achas? Mas se antes eles pudessem levar cada um uma coisa…

Clara – Evitava-nos o trabalho de deitar fora.

António – É verdade… bela ideia. Podemos propor a cada um que escolha um objecto antes de se irem embora, como recordação da nossa querida desaparecida.

Clara – Nesse caso seria melhor sortear os lotes para evitar discussões

António – Achas que a velha prometeu o jarrão a duas pessoas de propósito?

Clara – E porque é que ela teria feito isso?

Chega a Dra. Bordalina.

Bordalina – Muitas pessoas gostam de partir sabendo que deixam um monte de lixo. Quer seja um penico a dividir por duas pessoas ou a Palestina. No Médio Oriente, há 5.000 anos que isso dura. Imagino que para os nossos queridos idosos é uma maneira de se tornarem imortais, continuando a estar presentes entre nós através das confusões que nos deixam quando morrem. Pelo menos assim têm a certeza que não serão logo esquecidos. Bordalina Serpa, psicoterapeuta. Sou a vossa vizinha do lado.

Clara – Psicanalista? Por favor entre. Quanto mais loucos vierem mais riremos.

António – Posso concluir que conhecia muito bem a minha tia Lazarina e que foi sua médica?

Bordalina – Se fosse o caso não vos podia dizer… Sigilo profissional. Mas não. Lazarina pertencia a uma geração que preferia confiar os seus segredos num confessionário do que fazê-lo num divã.

António – E ainda por cima é mais barato

Bordalina – E menos doloroso. Comigo as pessoas não se veem livres dos problemas com dois Pais-Nossos.

António – De qualquer maneira a doutora conhecia a minha tia.

Bordalina – Observava-a de longe… Simples deformação profissional.

Clara – Já que ela não era sua paciente, então pode falar-nos um pouco dela.

Bordalina – São apenas rumores…

António – Que espécie de rumores?

Bordalina – Segundo o que se dizia, a vossa tia teria escondido um tesouro em casa.

Clara – Um tesouro?

Bordalina – A acreditar no que dizem os porteiros, o defunto marido de Lazarina ganhou uma fortuna trazendo diamantes de Angola com a conivência de alguns políticos.

António – Isso explica que ela o tenha tido que esconder depois do 25 de Abril.

Bordalina – Ela terá comprado este apartamento durante aqueles tempos conturbados e nunca se soube o que aconteceu aos antigos proprietários, presos por denúncia dela, depois do 25 de Abril.

Clara – Será possível?

António – Então ninguém sabe o que era esse tesouro nem, claro, onde é que ela o possa ter escondido.

Bordalina – A menos que tudo isto seja uma invenção.

António – E ela falava disso?

Bordalina – Ela achava graça e não desmentia.

António – E que interesse teria ela em que se soubesse que tinha denunciado pessoas?

Bordalina – Quem sabe? Talvez achasse graça a que se falasse de uma fortuna que teria escondida em casa, a qual poderia eventualmente deixar a quem a tratasse bem.

Clara – Estou a ver.

Bordalina – Vou ter com os outros ao terraço… Penso que a festa é lá fora como sempre foi… Já agora… fechei a porta da entrada… achei melhor.

Bordalina sai para o terraço.

Clara – Decididamente a tua tia Lazarina parece-me cada vez mais simpática.

António – E a sua herança cada vez mais tóxica.

Clara – Não me espanta que o resto da família tenha cortado relações com ela.

António – E se os vizinhos tivessem vindo todos para deitar a mão ao tesouro?

Clara – É por isso que cada um quer uma coisa cá de casa.

António – Vá-se lá saber… se calhar havia qualquer coisa dentro do jarrão.

Clara – Teríamos dado por isso quando o jarrão se partiu, não achas?

António – A cómoda pode ter um fundo falso.

Clara – A menos que debaixo daquele horroroso quadro se esconda uma obra de arte.

António – Ou então já algum deles encontrou o tesouro.

Clara – E decidiram livrar-se da velha depois disso para partilhar o dinheiro.

António – Então por que razão estariam aqui todos hoje?

Clara – Eles ainda não conseguiram deitar a mão ao apartamento.

António – Devemos estar a estragar-lhes os planos.

Pausa.

Clara – Se calhar vão denunciar-nos à polícia.

António – Mas não têm nada a apontar-nos.

Clara – E os comunistas que a tua tia denunciou, achas que eles tinham algo de reprovável?

António – Achas que eram comunistas?

Clara – É provável…

António – De qualquer maneira já não somos governados por ditadores e não somos comunistas.

Clara – Fala por ti.

António –Tu és comunista?

Clara – Porquê, isso incomoda-te?

António – Não, nada disso, só que não sabia…

Clara – Digamos que já tive ligações com eles.

António – Ligações? O que queres dizer com isso?

Clara – Esquece… mudemos de assunto.

António – Não sabia que tinhas tido ligações com os comunistas.

Clara – Há uma semana tu também não sabias que tinhas uma tia fascista.

António – Não compares… Deves estar a delirar… Eu não sou responsável pelo que a minha tia fazia… Ainda nem sequer tinha nascido.

Clara – Está bem… Mas incomoda-me saber que a tua tia denunciou pessoas durante o fascismo, que o teu tio ganhou dinheiro com diamantes de Angola e que nós podemos vir viver num apartamento comprado por eles que tu herdaste.

Pausa.

António – Acho que estamos a delirar.

Clara – Tens razão. Afinal isto é só a Festa dos Vizinhos.

António – Achas que poderão ter posto qualquer coisa na sangria?

Clara – Vamos até ao terraço para ver o que eles possam estar a tramar.

António – Achas?

Clara – Estamos em nossa casa, não estamos.

António – Se tu o dizes…

Saem ambos. Chega Joe que lhe põe a vasculhar a sala. Idalina volta para a sala e surpreende-o.

Idalina – Por mim não se incomode.

Joe – Ah! D. Idalina … por quem me toma. Não sou quem você pensa.

Idalina – Já tinha desconfiado, sabe.

Joe – A si posso dizer-lhe… afinal de contas temos quase a mesma profissão.

Idalina – Qual profissão? Não tenha vergonha, pode tratar-me como se eu também fosse puta.

Joe mostra-lhe um cartão de polícia.

Joe – Inspector Ramires.

Idalina – Inspector?

Joe faz-lhe sinal para se calar pois esta informação deve manter-se em segredo.

Joe – Estou aqui “undercover”.

Idalina – Under quê?

Joe – Disfarçado, infiltrado, com uma identidade falsa, está a perceber?

Idalina – Sim, sim.

Joe – Temos boas razões para desconfiar que a velha… como é que ela se chamava?

Idalina – Lazarina.

Joe – É isso mesmo… Nós pensamos que a Senhora Dona Lazarina não teve morte natural.

Idalina – Ai sim?

Joe – Pode tratar-se dum assassínio mas ainda não temos provas. Estou aqui para investigar.

Idalina – Muito bem.

Joe – Para porteira não é lá muito faladora pois não.

Idalina – Nem por isso.

Joe – E a senhora sabe de alguma coisa.

Idalina – Não.

Joe – Sinto que me vai dar uma ajuda preciosa… Conhece as circunstâncias exactas da morte de Lazarina?

Idalina – Creio que foi um acidente, não foi?

Joe – Vá-se lá saber. Quando é um dos potenciais criminosos que preenche a certidão de óbito e um outro que ministra a extrema-unção…

Idalina – Ah sim…

Joe – Imagino que também nada sabe sobre um tesouro que a velha teria em casa dela.

Idalina – Não sei não.

Joe – Bom, vamos até ao terraço para não estranharem a nossa ausência. Se por acaso se aperceber de qualquer coisa venha ter comigo, de acordo?

Idalina – Fique descansado.

Joe – A partir de agora a Idalina é a minha adjunta.

Saem as duas. Chegam o Coronel Farto e o Dr. João Barra, advogado.

Dr. Barra – Não há ninguém?

Coronel Farto – Não sei… mas a mesa está posta, como todos os anos…

Dr. Barra – Devem estar todos no terraço…

Coronel Farto – Aproveitemos para beber um copo, caro Doutor Barra.

Dr. Barra – Sangria?

Coronel Farto – Já agora…

Dr. Barra – De qualquer maneira não vejo outra bebida…

Fazem uma saúde tocando os copos.

Coronel Farto – A sangria da Administradora do prédio continua muito má.

Dr. Barra – Tem razão, cada ano pior.

Voltam a beber um golo.

Coronel Farto – Não posso deixar de pensar que o sacrista do religioso deve saber qualquer coisa.

Dr. Barra – O padre Santos? Acha?

Coronel Farto – Era o confessor da velha, não era?

Dr. Barra – Acha que esse beato falso se prepara para nos passar a perna?

Coronel Farto – Como é que podemos confiar neste padre?

Dr. Barra – Ainda por cima um padre que renunciou à igreja…

Coronel Farto – Porque será que o bispo o terá obrigado a deixar a igreja? Ele diz que foi ele quem pediu a demissão mas não acredito que tenha sido assim.

Dr. Barra – Realmente, com a actual crise de vocações, custa a crer que a igreja demita um padre… é preciso que ele tenha feito algo de muito grave.

Coronel Farto – Tem muita razão… Nem os mandam embora quando desconfiam de pedofilia…

Dr. Barra – Talvez ele tenha querido continuar a dizer a missa em latim ou alguma coisa do género.

Coronel Farto – Voltando ao assunto da velha… o senhor, como seu advogado, deve saber alguma coisa.

Dr. Barra – Segredo profissional…

Coronel Farto – Oh doutor, não me venha com essa treta, por favor…

Dr. Barra – Eu era apenas o advogado dela, não o seu confessor.

Coronel Farto – Ainda assim, tenho quase a certeza de que ele sabe onde é que ela encafuou o dinheirinho. Eu é que o vou confessar, você vai ver…

Dr. Barra – Mas vá com calma, já basta estarmos a braços com a morte da velha…

Coronel Farto – Não se preocupe… serei muito diplomata… pode ter a certeza de que não deixarei vestígios.

Dr. Barra – Quem mais poderá saber qualquer coisa sobre o dinheiro da velha?

Coronel Farto – O agente de seguros?

Dr. Barra – Não me cheira… A Lazarina tinha boas razões para não confiar nele.

Coronel Farto – O doutor sabe, por acaso, porque é que ele já esteve preso?

Dr. Barra – Ele recebia os prémios dos clientes cujos bens era suposto defender e o dinheiro ia direitinho para a o seu bolso… foi apanhado depois de um incêndio: o cliente dele esperava ser reembolsado e só depois é que se deu conta de que o seguro não existia.

Coronel Farto – E os pacóvios iam na conversa dele…

Dr. Barra – E o pior é que o tipo incendiou a própria casa de férias porque não conseguia vendê-la… esperava resolver o assunto recebendo a indemnização do seguro…

Coronel Farto – Que idiota! Mas o doutor parece conhecer muito bem o processo…

Dr. Barra – E conheço… O idiota fui eu!

Coronel Farto – Estou a ver… De qualquer maneira já não temos muito tempo… Quando aqueles dois cretinos se instalarem aqui será muito mais difícil revistar o apartamento.

O Coronel começa a abrir e vasculhar algumas gavetas e o advogado imita-o. Sérgio Grude regressa à sala acompanhado do Padre Santos.

Sérgio Grude – Estão à procura de alguma coisa?

Dr. Barra – Se calhar o mesmo que o senhor…

Coronel Farto – E o senhor, padre? O senhor era o confessor de Lazarina!

Padre Santos – Infelizmente, meu filho, a pobre Lazarina não me contava tudo… e mesmo que contasse, devo lembrar-vos que o que me dizem em confissão é segredo.

Sérgio Grude – Desde que não queira fazer-nos o ninho atrás da orelha…

O Dr. Barra e Sérgio Grude começam a procurar em tudo o que é lugar.

Padre Santos – Tenhamos confiança, meus filhos. A Bíblia diz: procura e encontrarás, pede e receberás, bate à porta e ela ser-te-á aberta…

Sérgio Grude – E ainda por cima goza connosco!

O Coronel aproxima-se do padre com um ar ameaçador.

Coronel Farto – Tem a certeza, padre, que não tem nada para nos confessar? Confie em mim e eu dar-lhe-ei a absolvição. Mas se preferir ser mártir, também lhe posso dar a extrema-unção…

António e Clara regressam. O Coronel larga o colarinho do padre e os outros dois, apanhados em falta, param de vasculhar.

Dr. Barra – Oh meus queridos amigos, íamos agora mesmo ter convosco. Apresento-me: Doutor Barra, advogado.

Coronel Farto – Não é preciso dizer o que faz pois todos os seus clientes acabam atrás das grades.

Dr. Barra – Apresento-vos o Coronel Farto.

Coronel Farto – Queridos vizinhos…

António – Os senhores… Os senhores perderam alguma coisa?

Dr. Barros – Sim… O Coronel já não se lembra onde deixou o telemóvel.

Clara – Então porque não lhe liga?

Dr. Barros – E porque é que lhe hei-de ligar se ele está aqui ao meu lado?

Clara – Para saber onde está o telemóvel dele.

Dr. Barros – Claro… mas… não estou certo de ter o seu número de telefone.

António – Já que está ao lado dele porque é que não lho pede?

Dr. Barros – Claro… mas… Ah já encontrei… Acho que o tenho.

Ele apoia numa tecla do seu telemóvel e começa a tocar o telemóvel do Coronel, no seu bolso.

Coronel Farto – Que disparate… Procuro sempre em tudo o que é lugar e o telemóvel está sempre no meu bolso… Ai esta cabeça…

Dr. Barros – Pronto, agora que as apresentações estão feitas…

Momento embaraçoso em que todos ficam sem saber o que dizer.

Coronel Farto – Padre, quer acompanhar-me? Vamos até ao terraço… tenho uma perguntinha a fazer-lhe. Uma espécie de caso de consciência…

Padre Santos (desconfiado) – Se eu puder esclarecê-lo, meu filho…

Saem ambos.

Dr. Barros – Vou pôr uma música…

Ele põe uma música. Ouvem-se gritos. O Dr. Barros aumenta o som da música.

Dr. Barros – Adoro esta passagem… é Chopin, não é?

Clara – Não, é Wagner!

Dr. Barros – Claro, tinha o nome na ponta da língua… (Barulhos de luta) Vou ver o que eles estão a fazer. O Coronel tem um temperamento um pouco agressivo. Quando fala de Teologia com o padre Santos tem tendência a inflamar-se um pouco…

Sai e Clara baixa o som da música.

Clara – Curioso… a cara deste padre não me é estranha.

António – Onde é que tu podes ter encontrado um padre?

Clara – Eu ainda fiz a primeira comunhão…

António – Mas outro dia disseste-me que eras judia?

Clara – Eu não te disse que era judia… Digamos que… é mais complicado do que parece.

A psicóloga, Dra. Bordalina Serpa regressa à sala e serve-se de sangria.

Clara (dirigindo-se à Dra. Bordalina) – A senhora conhece bem o Padre Santos?

Bordalina – Os padres raramente consultam psicólogos. É pena que o não façam pois são aqueles que mais precisam.

Clara – Eu tenho a impressão que o conheço mas não consigo lembrar-me da ocasião em que me possa ter cruzado com ele

Bordalina – Há por vezes coisas que nós preferimos esquecer. Chama-se a isso “recalcamento”.

António – É verdade… É o que aconteceu com a minha tia Lazarina. Não sabia que tinha uma tia e quando soube da sua existência isso não me surpreendeu. Acredito que já devia ter ouvido falar nela quando era criança.

Bordalina – Segredos de família… é como os cadáveres que lançamos à água com um peso atado ao pé. Ao longo do tempo, à medida que o corpo se decompõe, pesa menos e acaba por vir à superfície.

António – Lazarina…

Bordalina – Banida por colaborar com o Salazar e a sua pandilha.

Silêncio.

Clara – Quando era adolescente toda a gente gozava comigo porque eu já tinha um peito grande. Não sei porque é que isto me veio agora à cabeça…

Bordalina – O padre Santos… isso deveria intrigá-la.

Novo silêncio. Perturbação de Clara.

Clara – Lembrei-me… Agora já se fez luz… A primeira comunhão… O catecismo… Era ele!

António – Ele?

Clara – Eu queria fazer a primeira comunhão como todas as minha amigas… Para ser como elas… estudei sempre numa escola católica…

António – Mas também nunca me falaste disso. Ainda por cima tu és uma acérrima defensora da escola pública!

Bordalina – Resigne-se, meu pobre amigo. As mulheres não vos dizem sempre tudo. Nem mesmo a sua santa Mãe. Aliás, ela escondeu-lhe a existência da Tia Lazarina.

Clara – O padre sabia que eu tinha antepassados judeus… e disse-me que podia fechar os olhos se eu também fechasse os meus…

E sai precipitadamente da sala. O Dr. Barra entra e aumenta o som da música.

Dr. Barra – Adoro estre trecho.

A baronesa regressa.

Baronesa – Aqui já ninguém se entende.

Bordalina – Pelo contrário, garanto-lhe que nos entendemos cada vez melhor.

Dr. Barra – Não se diz que a música liberta dopamina no coração… Desculpem, queria dizer no cérebro.

O Coronel regressa.

Coronel Farto (curvando-se frente à baronesa) – Senhora baronesa, os meus respeitosos cumprimentos. Dá-me a honra desta dança?

Baronesa – As minhas desculpas, coronel, mas não inscrevo no meu “carnet de bal” patentes abaixo de General. Um coronel? Só se fosse muito novo…

Coronel Farto – Mas baronesa não é o título menos importante nos de sangue azul?

Baronesa – Além disso não se dança ao som de Wagner.

Coronel Barra – Já que ninguém dança, vou baixar a música.

O coronel baixa o som da música.

Coronel Farto – E se fossemos felicitar a senhora dona Graziela Forte pela maravilhosa sangria que fez?

Bordalina – Acho muito bem… e podemos pedir-lhe a receita.

Dr. Barra – Todos sabem que ela sempre se recusou a partilhar o segredo da sua sangria.

Coronel Farto – Caro doutor, esquece-se que eu fiz a guerra na Guiné. Saberia bem como obrigá-la a falar…

Dr. Barra – Ele é impagável…

Saem o Coronel e o Advogado. Clara regressa.

António – Sentes-te bem? Estás tão pálida…

Clara – Sim, sim… Já estou melhor… Não devia mas estou de facto melhor… Quero dizer… é verdade que isto alivia…

António parece nada compreender.

Bordalina – Creio que finalmente ela matou o padre.

E sai da sala.

António – São todos malucos, acredita.

Clara – E começo a questionar-me se a loucura deles não será contagiosa.

António (alheado) – Ah sim?

Clara – Acho que há bocadinho fui um pouco longe demais com o padre Santos… Tentou uma vez mais tocar-me no peito e eu dei-lhe um valente empurrão…

António – Mas o principal é que deve mesmo haver um tesouro nesta casa. Tu viste? Estavam todos a vasculhar as gavetas.

Clara – Então nós também devíamos procurar.

António – E começamos por onde?

Clara – Não sei… mas o certo é que os temos que revistar todos antes de se irem embora.

António – Há bocado queríamos que cada um deles levasse uma coisa para despacharmos estas porcarias…

Clara – Nem penses nisso. (Um pouco histérica) Esse tesouro é nosso e nós vamos encontrá-lo.

E começam ambos a vasculhar tudo. A dona Idalina, porteira, regressa. Eles interrompem o que estavam a fazer quando se dão conta de que são observados.

António – Viva dona Idalina.

Clara – A senhora é a porteira, não é?

Idalina – Estou à procura daquela senhora… Joe… por acaso não a viram?

Clara – Eu não.

António – Então a senhora é que é a porteira.

Idalina – Hum…

Clara – Então é a si que devemos agradecer por manterem o prédio limpo…

António – Espero que a minha tia tenha sido generosa consigo.

Idalina – A Sra. D. Lazarina… O que é que eu posso dizer… Durante os trinta anos em que semanalmente também fiz a limpeza em casa dela, nem uma gorjeta me deu.

António – Infelizmente receio que nós não tenhamos meios para a manter como empregada de limpeza.

Clara – Nós não temos um tesouro escondido… como a tia Lazarina tinha.

Idalina – Mas a vossa tia não era lá muito generosa.

António – Mas parece que ela era muito estimada aqui no prédio.

Idalina – É verdade… Ela disse a todos que não os esqueceria no seu testamento.

António – No seu testamento? A minha tia deixou um testamento?

Idalina serve-se de sangria.

Idalina – De qualquer maneira ninguém encontrou o testamento depois da sua morte… Mas sabe-se lá… talvez um dia ele apareça… desculpem, tenho que ir falar já com o comissário… quero dizer, com esse travesti que por aí anda.

Idalina sai.

António – Um testamento… Já viste como isso alteraria tudo…

Clara – Achas? Porquê?

António – Eu sou apenas o sobrinho neto; se herdo este apartamento é porque não encontraram qualquer testamento que determinasse especificamente algum outro herdeiro.

Clara – Mas tu és a única pessoa de família que ela tinha.

António – Eu sou apenas o herdeiro por não haver outro; se ela fez testamento pode muito bem ter deixado o apartamento a outra pessoa; aos seus vizinhos, por exemplo.

Clara – Estou a perceber… então se esse documento for encontrado…

António – Só nos resta ficar no nosso T1 da Amadora.

Clara – Então pensas que é isso que eles procuram… O testamento!

António – Se esse documento existir, convém que sejamos nós os primeiros a deitar-lhe a mão.

Clara – Mas agora não podemos pô-los na rua assim sem mais nem menos.

António – Onde é que ela pode ter escondido o estupor do testamento.

Clara – Vamos ver no quarto dela…

Saem os dois. Joe regressa e põe-se a vasculhar a sala. É interrompida pela chegada da porteira.

Idalina – Até que enfim, comissário, andava à sua procura. Ao que parece o Padre Santos também foi vítima de um acidente doméstico… Acabo de ver o corpo dele todo esfrangalhado lá em baixo, no pátio.

Joe – Decididamente aquele parapeito parece-me perigoso. Era bom que os senhores tratassem do assunto… Eu dou uma palavrinha à administradora do prédio.

Idalina – Digo-lhe que morreu uma pessoa e está preocupado com o parapeito.

Joe – Tem razão, vou dar uma vista de olhos.

Saem. Graziela regressa com o Dr. Barra e o Coronel Farto.

Graziela – O coronel não tem tacto algum… Não tínhamos necessidade dum segundo cadáver…

Dr. Barra – Isto vai mesmo acabar por parecer duvidoso.

Coronel Farto – Mas não fui eu, juro! Só lhe dei um safanão antes de o deixar com a dona da casa.

Graziela – Seja o que for que se tenha passado temos que tratar de esconder o corpo. Por agora podemos pô-lo na cave… depois logo se vê.

Coronel Farto – Eu trato disso

Dr. Barra – Um padreco… Ninguém dará pela sua falta… Já ninguém vai à missa…

Coronel Farto – Sobretudo missas em latim.

Graziela – Então vá… do que está à espera?

Coronel Farto – Vou já.

O Coronel sai

Dr. Barra – E pensar que o padre podia ser o único a saber onde está o maldito testamento da Lazarina.

Graziela – E o senhor tem a certeza de que esse testamento existe?

Dr. Barra – Fui eu mesmo que lhe sugeri que o fizesse. E ela garantiu-me que o tinha feito.

Graziela – Mas eu já me certifiquei que o testamento não está registado no notário.

Dr. Barra – Ela pode ter feito um testamento ológrafo.

Graziela – Ológrafo?

Dr. Barra – Sim, uma declaração manuscrita com as disposições sobre como distribuir os bens após a morte… e é legal… desde que ele exista e apareça.

Graziela – Então para que serve fazer uma coisa dessas se se esconde de tal maneira que ninguém a encontra?

Dr. Barra – Vá-se lá saber… se calhar ela tinha medo que algum mal intencionado o encontrasse.

Graziela – Esse maldito papel deve estar aí escondido algures nesta casa.

Dr. Barra – É evidente que, a existir, esse testamento poria em causa a herança deste sobrinho afastado.

Graziela – Desde que a doida da velha nos tenha feito seus herdeiros.

Dr. Barra – E onde é que esses dois cretinos estarão?

Idalina chega.

Dr. Barra – Não era a senhora que fazia a limpeza deste apartamento? Não saberá por acaso onde é que a Lazarina guardava os documentos importantes?

Idalina – O que é que o senhor pensa? Acha que pelo facto de ser empregada doméstica eu ando por aí a mexer no que não é meu?

Chega a Dra. Bordalina seguida do Coronel Farto.

Graziela – E a senhora, Doutora. Bordalina, tem alguma ideia?

Bordalina – Francamente… sou psicanalista, não sou adivinha.

Dr. Barra – Mesmo assim, deve conhecer os mistérios da alma humana.

Bordalina – O senhor por acaso leu “A Carta Roubada” de Edgar Poe?

Graziela – Não sabia que esse senhor nos tinha escrito uma carta. É um novo proprietário?

Bordalina – Esqueça… Quando queremos esconder alguma coisa às vezes é mais fácil pô-la quase à vista de todos, num lugar onde não caberia na cabeça de alguém ir procurar.

E sai da sala.

Coronel Farto – Detesto os ares superiores desta fulana… Parece que está sempre a dar-nos lições… Como se fossemos ignorantes…

Graziela – À vista de todos… Se calhar ela tem razão… O que é que aqui estará à vista de todos?

Olham todos à volta da sala, perplexos, sem repararem no quadro que ocupa um lugar de destaque numa das paredes. E recomeçam a vasculhar. Chega Melissa Grude.

Melissa – Acho que encontrei alguma coisa.

Olham todos para ela. Melissa segura e sacode uma peruca.

Graziela – O que é isso?

Melissa – Uma peruca!

Coronel Farto – E daí?

Graziela – Não nos vai dizer que a Lazarina era um travesti.

Idalina – Deve ser uma recordação.

Dr. Barra – Uma recordação?

Idalina – A peruca que ela teve que usar quando o cabelo lhe caiu.

E põe a peruca na cabeça. António e Clara voltam.

António – O que é que está a fazer com essa coisa na cabeça?

Graziela – Não me diga que já não nos podemos divertir.

Coronel Farto – Credo, até já chateia… andam a espiar-nos ou quê?

Clara – Nós? A espiá-los?

António – Estamos em nossa casa, não estamos?

Dr. Barra – Por enquanto… sim.

Coronel Farto – Devem saber que não têm legitimidade alguma para estar aqui. Nem sequer conheciam a Lazarina.

António – Sim, mas somos do mesmo sangue. E lei é lei. Quer vos agrade ou não, sou eu o herdeiro deste apartamento.

Idalina – Nem sequer o vimos no enterro da Lazarina.

Clara – E vocês todos? Só tomavam conta dela na esperança de que os vossos nomes constassem do testamento.

Graziela – A sua tia detestava os esquerdistas… ela nunca deixaria os seus bens a pessoas como vocês.

António – A senhora… A senhora começa a chatear-nos.

Coronel Farto – Por favor não seja indelicado com a dona Graziela Forte, não seja impertinente. Quer acabar como a sua tia?

António – Então é verdade, foi o senhor que assassinou a tia Lazarina?

Dr. Barra – Vamos, coronel, tenha lá calma… Sabe muito bem que a morte da Lazarina foi acidental.

A Dra. Sara Curado chega, seguida de Joe.

Clara – Eu pensava que ela tinha morrido de ataque cardíaco, não é verdade Doutora Sara Curado?

Sara Curado – Para ser franca, não se sabe muito bem do que morreu.

António – Mas foi a senhora que passou a certidão de óbito, não foi?

Sara Curado – Sabe, a medicina legal não é uma ciência exacta.

Clara – Mesmo assim a senhora deve saber se ela morreu de paragem cardíaca, de uma queda do 5º andar ou com uma bala nas costas…

António – Ou por ter exagerado nos barbitúricos ou por enforcamento …

Melissa – Efectivamente foi uma mistura de tudo isso.

Passa um anjo.

Idalina (em segredo a Joe) – Do que é que está à espera para os prender?

Joe – Espero ter mais provas… Acredite em mim… Deixe a polícia trabalhar

Joe sai, seguida de Idalina.

Dr. Barra – Acho que a Senhora Dona Melissa abusou da sangria… Se o seu marido a levasse para o terraço para apanhar um pouco de ar…

Sérgio Grude – Vem comigo, minha querida.

Melissa – Para quê… Ainda me aguento bem de pé.

Sr. Sérgio Grude sai levando a sua mulher. A Dra. Bordalina regressa e serve-se de sangria.

Dr. Barra – Creio que todos nós abusámos um pouco deste delicioso elixir que a Administradora Graziela nos preparou.

Sara Curado – A propósito, ainda não me deu a receita da sangria.

Bordalina – O segredo da sangria, como o de uma bela reunião de família, é deixar marinar todos os ingredientes no seu sumo durante algum tempo.

Sai da sala, com um andar inseguro, meia etilizada.

Dr. Barra – Bem, acho que devemos acalmar um pouco. Afinal estamos todos aqui para celebrar a chegada dos vizinhos e a memória da nossa querida Lazarina.

Sérgio Grude – Sim, muito querida.

Sara Curado – E você jovem António, o que é que faz na vida?

António –Trabalho para uma editora. Sou director de um sector que edita guias de viagem.

Graziela – Já viram… guias de viagem… isso é apaixonante.

Dr. Barra – Então deve viajar muito.

António – Deve saber que podemos escrever romances policiais sem ser polícia ou vadio.

Clara – Infelizmente, hoje em dia, até se podem escrever romances sem se ser romancista.

Sara Curado – E a menina o que faz?

Clara – Sou professora de inglês.

Graziela (ausente) – Ah, então é isso…

Sara Curado – Imagino que para ser professora de inglês tenha pelo menos que falar inglês, não?

Clara – Claro. Mas com a dificuldade que há em ter bons professores de línguas, qualquer dia nem isso será obrigatório

António – Mas há mesmo falta de professores? Não sabia.

Clara (ao ouvido de António) – Com uma pergunta daquelas o que querias que respondesse?

Sara Curado – O mesmo se passa com os médicos. Há cada vez menos e somos obrigados a mandá-los vir do estrangeiro. Imaginem só que o meu é preto…

Dr. Barra – Não me diga, Doutora.

Sara Curado – E passa-se o mesmo com os padres. Com a crise de vocações… Vão ver que daqui a pouco tempo já nem é preciso acreditar em Deus para dizer missa.

Dr. Barra – Ou até mesmo ser católico. Até já se diz por aí que vão transformar as nossas igrejas em sinagogas.

Sara Curado – Parece-me que o Dr. queria dizer mesquitas, não?

Dr. Barra – Vai dar ao mesmo.

Sérgio Grude regressa.

Sérgio Grude – Posso servir-vos um pouco mais de sangria?

Graziela – Vá lá…

A atmosfera fica um pouco pesada.

António – Não, muito obrigado.

Clara – Eu também não, muito obrigada, acho que já tenho a minha conta.

António – Aliás já começa a ser tarde, não acham?

Graziela –Um último copito… para a viagem.

Sérgio Grude – Agora que começámos a conhecer-nos não nos vamos separar já.

Graziela dá um copo de sangria a António e Clara, que se vêm forçados a beber mais um pouco.

Sara Curado – É boa, não é?

Clara – Sim… acho que vou vomitar.

António – Vou contigo.

Preparam-se para sair precipitadamente.

Graziela – Sabem onde fica a casa de banho?

Sara Curado – A porta da frente, ao fundo do corredor.

António e Clara saem.

Dr. Barra – Esta sangria é mesmo infecta… o que é que lá põe dentro?

Sérgio Grude – Espero que não nos queira envenenar todos para guardar a herança só para si.

Sara Curado – Calma, vejamos… sabem bem que no caso da Lazarina foi um lamentável acidente.

Dr. Barra – No máximo um homicídio involuntário, do ponto de vista legal.

Graziela – Poder-se-ia até dizer um acidente doméstico seguido de um erro médico.

Sérgio Grude – Seja o que for que tenha acontecido, se não encontrarmos o testamento não nos toca nada.

Graziela – A velha enganou-nos bem a todos.

Sara Curado – E ao menos esse testamento existe?

Idalina – Já procurámos na casa toda.

Dr. Barra – E se eles o encontraram antes de nós chegarmos?

Sara Curado – Eles?

Dr. Barra – Esses dois desgraçados.

Graziela – E terão escondido o testamento?

Sara Curado – Tinham todo o interesse nisso, não?

Coronel Farto – Não temos outro remédio senão interrogá-los.

Sara Curado – Sim, mas então sem violência inútil.

Coronel Farto – Vamos esperar que eles voltem.

Graziela – Aqui já procurámos em tudo o que é lugar.

Sérgio Grude – Aproveitemos enquanto eles estão na casa de banho para vasculhar o resto do apartamento.

Graziela – Já viram o que a minha sangria faz… é mesmo boa.

Saem todos. António e Clara regressam.

António – Achas que se puseram todos a andar?

Clara – Espantar-me-ia que assim fosse… enquanto não descobrirem o testamento…

António – Onde é que a velha pode ter escondido essa coisa.

Clara – Num cofre?

António – Nos filmes os cofres costumam estar atrás dos quadros.

Ambos tentam tirar o quadro da parede.

António – Merda, o raio do quadro é pesado.

Conseguem tirar o quadro e encostam-no a um móvel

Clara – Não há cofre algum na parede.

António (espreitando para a parte de trás do quadro) – Olha, olha aqui.

Voltam o quadro e veem que a parte de trás está coberta com um texto.

Clara – O testamento da tia Lazarina.

Amedrontados, viram de novo o quadro para não se ver a parte de trás.

António – Esquisito, não é?

Clara – Sim… dir-se-ia uma mensagem deixada por um fantasma.

António – E o que é que fazemos?

Clara – Podemos fazer de conta que nada vimos, que não encontrámos nada.

António – Ou até destrui-lo e fazer de conta que este testamento nunca existiu; seria mais seguro.

Clara – Mas pode ser que mesmo assim ela te deixe o apartamento … tu não sabias da sua existência mas ela sabia muito bem que tinha um sobrinho neto, não?

António – Isso resolveria todos os problemas… mas… não devemos sonhar.

Clara – Nunca se sabe… mais vale ver o que está escrito no papel antes de o destruir.

António – Tens razão, assim evitaríamos problemas de consciência difíceis de resolver.

Clara – Se pudermos recuperar este apartamento pombalino sem achincalhar a última vontade duma velha fascista.

António – Tens razão … no caso do testamento não me contemplar, de não ser o herdeiro legítimo, terei tempo de me reconciliar com a minha consciência.

Clara – Uma herança conseguida com dinheiro obtido da maneira que bem sabemos…

António – Acho que estás a levantar um problema que não nos diz respeito… mas está bem.

Clara – E depois trata-se de um belo apartamento.

António – Ok! Eu vou ver atrás do quadro… tenta aguentá-los fora da sala.

Clara sai para o corredor. António volta de novo o quadro e lê o que está escrito na parte de trás.

António – Ai o estupor da mulher…

Volta a pendurar o quadro. Clara regressa seguida pelo Coronel.

Coronel Farto – Então pelos vistos vamos ser vizinhos.

Clara – Sim, talvez… mas cruzei-me há pouco com Joe e creio que ela queria trocar umas palavras a sós consigo.

Coronel Farto – A sós comigo?

Clara – Eu não quis meter-me no assunto mas acho que o senhor lhe causou uma boa impressão. Ela deve estar no terraço.

Coronel Farto – Então vou ter com ela.

O Coronel sai.

Clara – Então?

António – Os vizinhos herdam apenas os móveis e bibelôs.

Clara – E o apartamento?

António – Ela deixa-o a algumas instituições.

Clara – Uma maneira de se redimir dos pensamentos impuros que teve sempre que olhou para este quadro, para o seu amor platónico.

António (embaraçado) – Sim, pode ser.

Clara – E quais são as instituições?

António – Tenho de ler outra vez… só tive tempo para ver o mais importante.

Clara – Bem… de qualquer maneira já não temos muito tempo. Temos que nos decidir.

António – E fazemos o quê?

António hesita.

Clara – É realmente a derradeira vontade da tia Lazarina.

António – Isso sem pensar que não será fácil fazer sumir o quadro.

Clara – E se um dia alguém se lembrar de ver a parte de trás do quadro.

António – Então desistimos? Dizemos a todos que encontrámos o testamento da tia?

Clara – Tu imaginas-te a viver neste apartamento? Com estes vizinhos psicopatas que se calhar até mataram a tua tia depois de a torturarem para lhe extorquir os bens.

António – E poderíamos ser os próximos na lista.

Momento de hesitação.

Clara – E afinal o apartamento não é assim tão maravilhoso.

António – Não exageres.

Clara – Tens razão, sempre é um apartamento em plena baixa pombalina com vista de Tejo.

António – Sim, mas por outro lado teríamos que pagar direitos sucessórios… e não devem ser pequenos…

Clara – Tens razão, mais vale mesmo desistirmos.

António – Vamos pelo menos olhar pela última vez para o rio Tejo.

Clara – Mas isso vai fazer-nos mal…

António – Ainda podemos mudar de ideias.

E saem para o terraço. Graziela regressa, acompanhada de todos os vizinhos, excepto Joe e a baronesa.

Graziela – Nada.

Coronel Farto – Essa velha devassa gozou mesmo connosco.

Sara Curado – Creio que vamos ter que perceber o que se passou, já que nunca iremos receber a recompensa de todos estes anos de abnegação ao serviço de uma ingrata

Coronel Farto – Andámos aqui com pezinhos de lã à volta da velha para nada

António e Clara regressam.

Dr. Barra – E claro que nos vão dizer que também nada encontraram.

António – Quer dizer…

Para grande surpresa de António, Clara faz-se de inocente.

Clara – Encontrar o quê?

Mas o quadro, mal pendurado, cai e todos podem ver o que está escrito na parte de trás

Dr. Barra – O testamento de Lazarina

Sara Curado – Deus seja louvado.

Sérgio Grude – Uma prova de que nunca se deve desistir.

Graziela – Nas costas de um quadro.

Melissa – E é válido?

Dr. Barra – A lei apenas refere que tem que ser escrito à mão pelo próprio… não define onde. Uma vez até validaram um redigido com sangue na parte lateral de uma máquina de lavar.

Idalina – E então o que é que o testamento diz?

Dr. Barra – Vou ler…

Tira os óculos e afina a garganta. António e Clara trocam olhares de resignação.

Dr. Barra – Este é o meu testamento autêntico, manualmente escrito por mim, que anula todos os outros

Joe – Talvez pudéssemos passar por cima dos preliminares.

Dr. Barra – Eu deixo o apartamento de que sou proprietária em Lisboa, metade para a Santa Casa da Misericórdia de Lisboa e a outra metade para a Fundação Salazar.

Bordalina – É o que se chama dividir o mal pelas aldeias … neste caso dividir o bem

Sérgio Grude – Se ambas as instituições decidirem partilhar o apartamento, a coabitação não deve ser fácil.

Decepção geral.

Sara Curado – É tudo?

Dr. Barra – Não… o quadro fica para a administradora do prédio, Senhora Dona Graziela, representante dos coproprietários, que o deverá colocar no hall de entrada para que todos possam disfrutar dele.

Graziela – Genial!

Dr. Barra – Segue-se uma lista exaustiva dos outros objectos sem valor que se encontram no apartamento, até à mais pequena colher de café. São referidas todas as pessoas e os respectivos objectos que recebem… e o vaso chinês é deixado, indiviso, à baronesa e à porteira.

Clara – A tia Lazarina afinal tinha bastante sentido de humor.

Graziela examina o quadro.

Ângela – Para que todos possam disfrutar… esta porcaria… e ainda por cima ela gozou connosco, essa velha idiota.

António – Por favor, a senhora está a falar da minha tia…

Dr. Barros – Que o deserda com este testamento.

Melissa – Estuporada.

Idalina – Nem pensem em por isso na entrada.

Melissa – Porque não… até faria com que os ladrões fugissem

Sérgio Grude – Bom, assim sendo, acho que não temos mais nada que nos retenha aqui

António – E o que é que se faz com o testamento?

Sara Curado – Faça o que quiser… tanto num caso como no outro não herdávamos nada.

Melissa – Excepto este monte de velharias sem qualquer valor.

Sérgio Grude – O melhor seria queimar esse testamento e assim o apartamento seria seu de pleno direito.

Sara Curado – Tê-los a vocês ou a outros como vizinhos é a mesmíssima coisa.

Graziela – Ao menos vocês já são um pouco da família.

Dr. Barra – Sim, vamos ter que nos voltar a encontrar.

Preparam-se para sair.

Melissa – Agradeço muito esta simpática reunião.

Graziela – E mais uma vez os nossos sentidos pêsames.

Saem todos, uns a seguir aos outros, passando em frente de António e Clara para lhes apertarem a mão ou dar um beijo, como se se tratasse de um enterro. António e Clara suspiram mal sai o último.

António – Regresso à casa de partida.

Clara – Nem por isso… ainda temos que decidir o que fazemos com este testamento.

António – Demasiado tarde para o fazer desaparecer… Há demasiadas testemunhas. Eles ter-nos-iam nas mãos.

Clara – Então?

António – Sei lá…

Clara – De qualquer maneira não tenho a menor vontade de dormir aqui esta noite.

António – Nem eu… E o que fazemos com o quadro? Quero dizer, com o testamento?

Clara – Não o conseguimos levar… É demasiado pesado.

António – Amanhã logo se vê… A noite é boa conselheira.

Clara – Voltamos para os nossos subúrbios, na Amadora. Não temos vista sobre o Tejo mas ao menos estamos na nossa casa.

António – Sim, decididamente era bom demais para ser verdade.

Clara – Podes aproveitar para escrever um romance.

António – Ou uma peça de teatro.

Clara – E se for um best-seller poderemos comprar um apartamento com os teus direitos de autor.

António olha pela última vez para o quadro.

António – Tinhas razão, era mesmo o Salazar.

Clara – Quando ainda era pouco conhecido.

António – Achas que volte a ligar o alarme?

Clara – Para o que aqui está que possam roubar?

Saem ambos.

Escuro.

Um raio de luz duma lanterna, explorando a sala. Depois um segundo raio de luz. Os raios cruzam-se. Um dos personagens mexe no interruptor e a luz acende-se. Descobrimos duas pessoas vestidas de Pai Natal.

Joe – Finalmente.

Baronesa – O que é que vamos fazer?

Joe – Não vamos chamar a polícia.

Retiram as barbas. São Joe e a Baronesa.

Baronesa – Deduzo que o senhor não é propriamente um polícia

Joe – Nem a senhora é uma verdadeira baronesa.

Baronesa – Vendo bem o senhor até faz o meu género.

Joe – Que género?

Baronesa – O género de mudar mais de identidade do que de cuecas.

Joe – Mas quem lhe disse que eu era polícia? Ou que era suposto sê-lo…

Baronesa – Quando se quer guardar um segredo mais vale evitar confidenciar com a porteira. (olhando para o disfarce da Baronesa) É curioso que tenhamos tido a mesma ideia.

Joe – Um Pai Natal, nesta época, chama menos a atenção, sobretudo de noite.

Baronesa – Eu diria mesmo que até inspira confiança.

Joe – Estou convencido que a senhora também não veio aqui deixar presentes ao pé da árvore de natal.

Baronesa – Não… então partilhamos?

Joe – Se houver algo para partilhar…

Inspecionam o apartamento.

Baronesa – O espólio parece-me fraco.

Joe – Mas eu tinha boas informações; e penso que a senhora também.

Baronesa – Dizia-se que a velhota tinha dinheiro aqui em casa. Mas aparentemente era um boato.

Joe – Um cofre-forte?

Afastam o quadro para ver.

Baronesa – Atrás do quadro não há nada.

Joe – E o quadro?

Olham atentamente para o quadro.

Baronesa – Uma bosta.

Joe – Uma trabalheira para nada.

Baronesa – E eu que contava com isto para enganar e casar com um plebeu rico.

Joe – E eu para dourar o meu corpinho sob o sol dos trópicos.

Baronesa – Infelizmente o Pai Natal não existe.

Joe – Vá, vamos embora.

Baronesa – Vou ficar ainda um bocadinho; é melhor que não saiamos ao mesmo tempo.

Joe – Tem razão… Dois Pais Natal juntos dão muito nas vistas.

Baronesa – Sim… As pessoas iriam questionar qual dos dois seria o verdadeiro.

Joe vai-se embora. A baronesa espera que ele se afaste e arranha o quadro com a unha. Joe volta, desconfiado, e vê o que ela está a fazer.

Joe – Era isso mesmo que eu estava a pensar… O quadro é tão pesado…

Baronesa – É ouro maciço.

Joe – A senhora sabia?

Baronesa – Eu tomava chá com ela de vez em quando. Um dia deitei-lhe um comprimido no chá. Sob o efeito do extasy, era uma mulher encantadora.

Ambos olham para o quadro.

Joe – Um belo presente de Natal.

Baronesa – Mesmo a dividir pelos dois.

Joe – E temos que conseguir levá-lo, só os dois …

Baronesa – Acho que agora podemos agradecer à tia Lazarina.

Joe – E agora cabe-nos a nós desmentir o célebre ditado popular.

Baronesa – Qual deles?

Joe – Quem espera sempre alcança.

Baronesa – Oh… não sou nada supersticiosa.

Retiram o quadro da parede. E começa a tocar uma sirene de alarme. Consternados olham um para o outro.

Joe – A velhota era mesmo tramada!

Escuro.

FIM

 

Autor

Nascido em 1955 em Auvers-sur-Oise (França), Jean-Pierre Martinez fez as suas primeiras aparições em palco como baterista de diversos grupos de rock, antes de se tornar publicitário semiólogo. Depois de um período como argumentista para televisão, regressa aos palcos como dramaturgo. Escreveu uma centena de guiões para o pequeno écran e mais de sessenta comédias para teatro, das quais algumas já são clássicas. Hoje em dia é um dos autores contemporâneos mais representados em França e nos países francófonos. Por outro lado, muitas das suas peças, traduzidas em espanhol e inglês, estão regularmente em cartaz nos Estados Unidos e na América Latina. Jean-Pierre Martinez é diplomado em literatura espanhola e inglesa (Sorbonne), em linguística (Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales), em economia (Institut d’Études Politique de Paris) e em guionismo (Conservatoire Européen d’Ecriture Audiovisuelle). Foi sua a decisão de disponibilizar todos os textos das suas peças para download gratuito no seu site La Comédiathèque : http://comediatheque.net

 

Peça de Teatro do mesmo autor em português

Sexta-feira 13 (Vendredi 13)

 

Pode fazer-se download gratuito

de todas as peças de Jean-Pierre Martinez

no seu site : www.comediatheque.ne

 

Todos os direitos de tradução,
adaptação e reprodução são reservados.
Este texto está protegido pelas leis
relativas ao direito de propriedade intelectual.
Qualquer reprodução fraudulenta está sujeita
a uma condenação de até 300 000 euros e 3 anos de prisão.

 

 

Paris – Décembre 2016

© La Comédi@thèque – ISBN 978-2-37705-066-6

 

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